
O BÚZIO
Como suportas ver o teu búzio jazendo ali na poeira?
Essa tragédia corta o ar e não deixa passar a luz.
Erguei-vos, guerreiros, agitai as vossas bandeiras!
Levaitai-vos, cantores, e cantai! Fazedores,
Entrai em acção! Não hesiteis!
Como podemos permitir que o vosso búzio inspirador nos olhe da poeira?
Cheguei ao quarto da oração com uma bela oferenda de flores,
Ansioso por acabar o trabalho do longo dia em santa paz.
Desta vez pensei que as feridas do meu coração
Seriam curadas; pensei que as minhas abluções
Me purificariam - até ver a degradação
Do teu grande búzio no caminho, jazendo na poeira.
Que farei com esta luz de oração, que pretendo com esta oração?
Devo abandonar as minhas flores da paz - devo tecer as grinaldas escarlates da guerra?
Esperei um calmo final para as minhas batalhas;
Pensava que as minhas dívidas tinham sido pagas, as
Batalhas vencidas, e que agora, agradecido, me podia
Instalar no teu colo: mas de repente o teu búzio mudo parecia soar no meu ouvido.
Oh, muda-me, toca-me com juventude, alquimiza-me! Deixa a minha feroz melodia
Resplandecer e girar no peito, e que o fogo da vida se
Transforme em êxtase!
Que se despedacem os alicerces da noite; que os céus,
Enquanto se enchem de luz do amanhacer, levem
O terror para a mais remota escuridão. A partir de hoje
Lutarei para ter e erguer o teu búzio da vitória.
Agora sei que já não posso fechar os meus olhos sonolentos.
Agora sei que uma chuva de setas deve embater no
Meu coração. Algumas pessoas correrão para o meu lado;
Outras hão-de chorar e suspirar de medo;
Horríveis pesadelos sacudirão as camas
Dos que dormem e ouvem: mas hoje o teu búzio retumbará de alegria.
Quando olhei para ti e quis descansar só senti vergonha;
Mas agora veste-me para a batalha, e que a armadura me cubra os membros.
Que novos obstáculos me atinjam e me desafiem;
Receberei todos os golpes e feridas resolutamente;
O meu coração recompor-se-á das tuas injúrias;
Usarei de toda a minha força, recuperarei o teu búzio e fá-lo-ei RESSOAR.
(Tagore)


