quarta-feira, novembro 08, 2006

Canção de mim mesma

X I X

Este é o alimento justamente repartido, esta é a carne para a fome,
Tanto com o mau como com o bom, com todos marco encontro,
Ninguém será menosprezado ou omitido,
A concubina, o parasita, o ladrão, estão pela presente convidados,
O escravo de grossos lábios está convidado, o sifilítico está convidado;
Não haverá diferença entre os demais.

Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo,
Esta é a profundeza e a altura distantes reflectindo o meu próprio rosto,
Esta é a meditativa fusão de mim próprio, e a saída outra vez.

Achas que tenho algum propósito obscuro?
Sim, tenho, como o têm as chuvas do quarto mês, e o tem a mica sobre as rochas.

Pensas que quero assombrar?
A luz do dia assombra? O pisco-ferreiro madrugador que chilreia nos bosques assombra?
Eu assombro mais do que eles?

Esta é a hora das minhas confidências,
Talvez não as faça a todos, mas a ti farei.


Walt Whitman, Song of Myself

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

bonito!...

pysco

20:13  
Anonymous Anónimo said...

Abaixo a Filarmónica de Berlim a cantar "Let it Snow" !

www.riapa.pt.to

08:14  
Anonymous Anónimo said...

Voz numa pedra


Não adoro o passado

não sou três vezes mestre

não combinei nada com as furnas

não é para isso que eu cá ando

decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz

decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João

nenhuma nenhuma palavra está completa

nem mesmo em alemão que as tem tão grandes

assim também eu nunca te direi o que sei

a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento



Não digo como o outro: sei que não sei nada

sei muito bem que soube sempre umas coisas

que isso pesa

que lanço os turbilhões e vejo o arco íris

acreditando ser ele o agente supremo

do coração do mundo

vaso de liberdade expurgada do menstruo

rosa viva diante dos nossos olhos

Ainda longe longe essa cidade futura

onde «a poesia não mais ritmará a acção

porque caminhará adiante dela»

Os pregadores de morte vão acabar?

Os segadores do amor vão acabar?

A tortura dos olhos vai acabar?

Passa-me então aquele canivete

porque há imenso que começar a podar

passa não me olhas como se olha um bruxo

detentor do milagre da verdade

a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

Mário Cesariny

13:28  
Anonymous Anónimo said...

«Faz-me o favor...»


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.


Mário Cesariny

14:02  
Blogger Dad said...

...........***
..........*****
.........*Feliz*
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......************
.....******ANO****
....******2007*****
...***COM MUITO***
..********AMOR*******
..........****
..........****
.......***DAD****

22:27  
Anonymous Anónimo said...

então, não queres por este belo poema da Fiama que tirei do Aspirina?

INFÂNCIA

Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo de flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.


py

19:21  

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