sexta-feira, outubro 20, 2006

Aos que vierem depois de nós



1
Realmente, vivo em tempos sombrios!
A palavra inocente é tola. Uma testa sem rugas
Denota insensibilidade. Aquele que ri
Só ainda não recebeu
A terrível notícia.
Que tempos são estes, em que
Falar de árvores quase é um crime,
Porque implica silêncio sobre tantos horrores!
Aquele que ali cruza tranquilamente a rua
Já não está contactável pelos amigos
Que estão em apuros?
É verdade: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que faço justifica que eu possa comer até fartar-me.
Por acaso estou poupado. (Se a sorte me abandonar estou perdido).
Dizem-me: "Tu come, bebe! Alegra-te, que tens!"
Mas como posso comer e beber, se
Ao faminto arranco o que como, e se
O copo de água falta ao sedento?
Mas apesar disso como e bebo.
Também gostaria de ser sábio.
Nos livros antigos diz como é ser sábio:
É manter-se afastado das lutas do mundo e passar o breve tempo
Sem medo.
Também dispensar da violência,
Retribuir o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
Consta que é sábio.
Tudo disso não sou capaz.
Realmente, vivo em tempos sombrios.
2
Às cidades cheguei em tempos de desordem,
Quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos de revolta
E indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão entre às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me encarreguei sem cuidado
E a natureza vi sem paciência.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o carrasco.
Era muito pouco o que eu podia.
Mas os governantes
Se sentavam, sem mim, mais seguros, — esperava eu.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas.
E o objectivo
Encontrava-se muito distante.
Via-se claramente,
Ainda que mal atingível, para mim.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
3
Vocês, que surgirão da maré
Em que perecemos,
Lembrar-se-ão também,
Quando falam das nossas fraquezas,
Dos tempos sombrios
De que puderam escapar.
Pois íamos, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos,
Através das lutas de classes, desesperados,
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
E, contudo, sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Distorce a cara.
Também a raiva sobre a injustiça
Torna a voz rouca. Ai nós,
Que quisemos preparar o terreno para a bondade
Não pudemos ser bons.
Vocês, porém, quando chegar o momento
Em que o homem seja do homem um amigo,
Lembram-se de nós
Com indulgência.
(Bertolt Brecht)

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

com indulgência e até com alguma simpatia, pois claro

14:30  
Anonymous Anónimo said...

aqui tens um poema que gosto muito:

VIAGEM

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar


Miguel Torga

01:26  
Blogger Sílvia said...

Sonhar é preciso, mas um dia teremos de partir, de qualquer maneira, até porque os navios não foram construídos para ficarem no cais.
Sílvia

11:57  

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