sexta-feira, outubro 27, 2006




O BÚZIO

Como suportas ver o teu búzio jazendo ali na poeira?
Essa tragédia corta o ar e não deixa passar a luz.
Erguei-vos, guerreiros, agitai as vossas bandeiras!
Levaitai-vos, cantores, e cantai! Fazedores,
Entrai em acção! Não hesiteis!
Como podemos permitir que o vosso búzio inspirador nos olhe da poeira?

Cheguei ao quarto da oração com uma bela oferenda de flores,
Ansioso por acabar o trabalho do longo dia em santa paz.
Desta vez pensei que as feridas do meu coração
Seriam curadas; pensei que as minhas abluções
Me purificariam - até ver a degradação
Do teu grande búzio no caminho, jazendo na poeira.

Que farei com esta luz de oração, que pretendo com esta oração?
Devo abandonar as minhas flores da paz - devo tecer as grinaldas escarlates da guerra?
Esperei um calmo final para as minhas batalhas;
Pensava que as minhas dívidas tinham sido pagas, as
Batalhas vencidas, e que agora, agradecido, me podia
Instalar no teu colo: mas de repente o teu búzio mudo parecia soar no meu ouvido.

Oh, muda-me, toca-me com juventude, alquimiza-me! Deixa a minha feroz melodia
Resplandecer e girar no peito, e que o fogo da vida se
Transforme em êxtase!
Que se despedacem os alicerces da noite; que os céus,
Enquanto se enchem de luz do amanhacer, levem
O terror para a mais remota escuridão. A partir de hoje
Lutarei para ter e erguer o teu búzio da vitória.
Agora sei que já não posso fechar os meus olhos sonolentos.
Agora sei que uma chuva de setas deve embater no
Meu coração. Algumas pessoas correrão para o meu lado;
Outras hão-de chorar e suspirar de medo;
Horríveis pesadelos sacudirão as camas
Dos que dormem e ouvem: mas hoje o teu búzio retumbará de alegria.

Quando olhei para ti e quis descansar só senti vergonha;
Mas agora veste-me para a batalha, e que a armadura me cubra os membros.
Que novos obstáculos me atinjam e me desafiem;
Receberei todos os golpes e feridas resolutamente;
O meu coração recompor-se-á das tuas injúrias;
Usarei de toda a minha força, recuperarei o teu búzio e fá-lo-ei RESSOAR
.
(Tagore)

sexta-feira, outubro 20, 2006

Aos que vierem depois de nós



1
Realmente, vivo em tempos sombrios!
A palavra inocente é tola. Uma testa sem rugas
Denota insensibilidade. Aquele que ri
Só ainda não recebeu
A terrível notícia.
Que tempos são estes, em que
Falar de árvores quase é um crime,
Porque implica silêncio sobre tantos horrores!
Aquele que ali cruza tranquilamente a rua
Já não está contactável pelos amigos
Que estão em apuros?
É verdade: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que faço justifica que eu possa comer até fartar-me.
Por acaso estou poupado. (Se a sorte me abandonar estou perdido).
Dizem-me: "Tu come, bebe! Alegra-te, que tens!"
Mas como posso comer e beber, se
Ao faminto arranco o que como, e se
O copo de água falta ao sedento?
Mas apesar disso como e bebo.
Também gostaria de ser sábio.
Nos livros antigos diz como é ser sábio:
É manter-se afastado das lutas do mundo e passar o breve tempo
Sem medo.
Também dispensar da violência,
Retribuir o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
Consta que é sábio.
Tudo disso não sou capaz.
Realmente, vivo em tempos sombrios.
2
Às cidades cheguei em tempos de desordem,
Quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos de revolta
E indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão entre às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me encarreguei sem cuidado
E a natureza vi sem paciência.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o carrasco.
Era muito pouco o que eu podia.
Mas os governantes
Se sentavam, sem mim, mais seguros, — esperava eu.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas.
E o objectivo
Encontrava-se muito distante.
Via-se claramente,
Ainda que mal atingível, para mim.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
3
Vocês, que surgirão da maré
Em que perecemos,
Lembrar-se-ão também,
Quando falam das nossas fraquezas,
Dos tempos sombrios
De que puderam escapar.
Pois íamos, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos,
Através das lutas de classes, desesperados,
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
E, contudo, sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Distorce a cara.
Também a raiva sobre a injustiça
Torna a voz rouca. Ai nós,
Que quisemos preparar o terreno para a bondade
Não pudemos ser bons.
Vocês, porém, quando chegar o momento
Em que o homem seja do homem um amigo,
Lembram-se de nós
Com indulgência.
(Bertolt Brecht)

terça-feira, outubro 10, 2006



SEM DATA

Esta voz com que gritei às vezes
Não me consola de só ter gritado às vezes.
Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
Chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
Sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.
Quando acabava uma soma de silêncios,
Gritava o resultado, não gritava um grito.
Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
Circula entre folhas paradas,
Conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

(Jorge de Sena)

domingo, outubro 01, 2006

SE...


Se podes conservar o teu bom senso e a calma
num mundo a delirar, para quem o louco és tu;
se podes crer em ti com toda a força d'alma,
quando ninguém te crê se vais faminto e nu
trilhando sem revolta um rumo solitário;
se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
tu podes responder, subindo o teu calvário,
com lágrimas de amor e bençãos de perdão;
.
se podes dizer bem de quem te calunia;
se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
mas sem a afectação de um santo que oficia,
nem pretensões de sábio a dar lições de amor;
se podes esperar sem fatigar a esperança,
sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho,
fazer do pensamento um arco de aliança
entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho;
.
se podes encarar com indiferença igual,
o triunfo e a derrota - eternos impostores!
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
e resignar, sorrindo, ao amor dos teus amores;
se podes resistir à raiva e à vergonha
de ver envenenar as frases que disseste
e que um velhaco emprega, eivadas de peçonha,
com falsas intenções que tu jamais lhes deste;

se podes ver por terra as obras que fizeste,
vaiadas por malsins, desorientando o povo,
e sem dizeres palavra e sem um termo agreste,
voltares ao princípio a construir de novo;
se podes obrigar o coração e os músculos
a renovarem um esforço há muito vacilante,
quando no teu corpo já afogado em crepúsculos,
só existe a vontade a comandar: - avante!...
.
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
se vivendo entre os reis conservas a humildade;
se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
são iguais para ti à luz da eternidade;
se quem conta contigo, encontra mais que a conta;
se podes empregar os sessenta segundos
de um minuto que passa, em obra de tal monta
que o minuto se espraia em séculos fecundos,
.
então - ó ser sublime - o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços,
mas ainda para além um novo sol rompeu
abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
sem receares jamais que os erros se retomem,
quando já nada houver em ti que seja humano,
alegra-te meu filho - então serás um homem!
.
Rudyard Kipliking