sábado, setembro 16, 2006

ARREPENDIMENTO




Sobre a terra... um céu eléctrico, luminoso;
Debaixo da terra (na negra e bárbara noite de baixo,
No chamado inferno civilizado
Onde se amontoa o dinheiro roubado)
O combate dos esfomeados contra os fartos!
O rugido do terramoto e o calor insuportável
Sacodem os alicerces do arco do triunfo
E derrubam a casa do tesouro.
Oscilando as suas cabeças estendidas,
Todas as serpentes do inferno
Expelem fogo com a sua respiração venenosa.
Não o faças, lamentando-te inultimente; não amaldiçoes Deus!
Deixa que antes o furioso Destruidor de Tudo
Destrua o pecado acumulado.
Com insuportável sofrimento
Deixa que a úlcera estrangulada vomite o seu veneno,
E o abutre da Ciência despedace
As vogais do mundo.
Um dia estas garras vermelhas de sangue
Soltarão a sua presa.
Os canibais agarram-se aos corações despedaçados
Que os débeis ofereceram em sacrifício...
Pedaços e fragmentos dispersos avermelham a terra;
No fim desta grande destruição
Surgirá um dia uma paz heróica.
Não terei medos ociosos
Mas aplacarei a angústia que brota.
Através dos afagos da plácida comodidade
Reuniu-se a debelidade...
Que arda em chamas e se torne cinza!
Os fiéis cobardes enchem as igrejas
Para adormecer o seu Deus com carícias;
Os débeis de coração acham que graças a orações assustadas
Trarão a paz aos seus lares.
Os avarentos não trazem oferendas
Mas levam seus mealheiros vazios;
Esperam, mediante a magia da linguagem,
Conquistar o mundo,
E conservar os seus ganhos
Cantando hinos santos.
Esperam conseguir que Deus esqueça...
Mas Ele não suporta esses insultos,
Nem as devoções falsas.
Se ainda há força no poder de Deus,
Então, após a penitência no fogo do sacrifício,
Nova vida numa nova terra
Brotará em nova luz.


(Tagore)

7 Comments:

Anonymous Anónimo said...

... lá vim eu fumar um cigarro, etc. :), obrigado por poder conhecer um pouco de Tagore, só conhecia de nome, já vi que gostas muito pois escolheste-o para cabeçalho.

O meu "mais querido" é o Khalil Gibran: o Profeta e o Jardim do Profeta.

Leste a Criação do Gore Vidal? Que monumento...

py

23:22  
Anonymous Anónimo said...

Não tomo lexotan, não adquiri a competência de fumar e há algum tempo que não leio ficção...
Hoje, de tarde, reparei na luminosidade do Outono que se aproxima...
Aqui vai mais poema de Tagore para ti. Espero que gostes...


O dia acabou.
Tira dos meus olhos
O véu de luz do sol poente.
No coração das Trevas correm os regatos da Luz eterna
Deixa que se abram no meu interior.
No fim de todas as palavras,
Deixa-as emergir e transformar-se no Uno.
Dentro do coração da Voz silenciosa,
Tocam a sua melodia eterna
Sussurra aos meus ouvidos essa melodia.

(Tagore)

00:20  
Anonymous Anónimo said...

é bonito, sim, obrigado.

Noutro dia vi o Raio Verde, de que falava o Julio Verne, aqui no por-do-sol. Mas afinal é fácil, basta olhar muito e no fim vê-se, só que se fica a flashar durante uma hora ou parecido.

Hoje vou para Lisboa para ver o filme do Almodovar e não só, tenho saudades da Carmen Maura

um bom domingo para ti

11:11  
Anonymous Anónimo said...

deixo-te aqui um link engraçado:

http://www.triplov.com/estela_guedes/Ler-ao-Luar/Fulgor-da-lingua/index.html

11:13  
Anonymous Anónimo said...

... gostei muito do filme, aquele calor humano, a Penélope Cruz está bela!, também é Bicho.

11:00  
Anonymous Anónimo said...

Também gosto do Almodovar e das suas "chicas"...
O que é "Bicho"?
Moras longe da capital do império?

18:42  
Anonymous Anónimo said...

Bicho é homenagem ao Torga, tod@s os animais selvagens e belos

O raio Verde que eu saiba só se vê quando o sol se põe lá para os lados do cabo da Roca.

Sílvia estou preocupado com uma coisa mas vou ao de cima que ainda tenho de reler...

22:52  

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