segunda-feira, setembro 25, 2006

Ser feliz...

Klee, Jardim de Rosas, 1920


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo e que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo.

(Fernando Pessoa)

domingo, setembro 24, 2006



O BASTÃO DA JUSTIÇA

Tu puseste em nossas mãos o bastão da Justiça,
E concedeste-nos o direito de castigar, ó Senhor!
Esta grande honra, esta árdua tarefa,
Humildemente, com a cabeça inclinada,
A aceito de ti!
Ao levar a cabo a minha tarefa não tenho medo algum.
Onde esquecer é uma fraqueza, uma cobardia,
Possa eu cumprir, ó Terrível!, o teu mandato,
E que a verdade surja da minha boca como uma espada resplandecente.
Sentado no teu trono da Justiça,
Que eu seja capaz de manter imaculada a tua honra.
O que se confunde,
E o que docilmente sofre...
Que o teu desprezo os abrase como à erva seca.

(Tagore)

terça-feira, setembro 19, 2006

A canção



(...)
Sozinho o cantor não faz uma canção, tem de haver alguém a ouvir:
Um homem abre a sua garganta para cantar, o outro canta no seu pensamento.
Só quando as ondas invadem a praia produzem um harmonioso som;
Só quando a brisa toca os bosques ouvimos um sussurro nas folhas.
Só com o casamento de duas forças a música se eleva no mundo.
Onde não existe amor, onde os ouvintes são mudos, nunca poderá haver uma canção.


Tagore, Canção interrompida.

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

(Miguel Torga)

sábado, setembro 16, 2006

PERGUNTA

Deus, mais uma vez ao longo dos tempos enviaste mensageiros
Para este impiedoso mundo:
Eles disseram, «Perdoa a todos», e disseram, «Ama o próximo -
Liberta o seu coração do mal.»
Eles são venerados e lembrados, embora nestes obscuros dias
Os mandemos embora com insensíveis cumprimentos, para fora das nossas casas.
E entretando vejo dessimulados ódios assassinando os desamparados sob a capa da noite;
E a justiça a chorar silenciosamente, furtivamente, o abuso do poder,
Sem esperança de redenção.
Vejo jovens a trabalhar freneticamente,
Aflitos, batendo com a cabeça na pedra, inutilmente.

Hoje a minha voz calou-se; não tenho música na minha flauta:
A negra noite sem lua
Encarcerou o meu mundo, mergulhando-o num pesadelo.
E é por isso que, com lágrimas nos olhos, pergunto:
A esses que envenenaram o teu ar, a esses que apagaram a tua luz,
Será que lhes perdoaste? Será que os amas?


(Tagore)

ARREPENDIMENTO




Sobre a terra... um céu eléctrico, luminoso;
Debaixo da terra (na negra e bárbara noite de baixo,
No chamado inferno civilizado
Onde se amontoa o dinheiro roubado)
O combate dos esfomeados contra os fartos!
O rugido do terramoto e o calor insuportável
Sacodem os alicerces do arco do triunfo
E derrubam a casa do tesouro.
Oscilando as suas cabeças estendidas,
Todas as serpentes do inferno
Expelem fogo com a sua respiração venenosa.
Não o faças, lamentando-te inultimente; não amaldiçoes Deus!
Deixa que antes o furioso Destruidor de Tudo
Destrua o pecado acumulado.
Com insuportável sofrimento
Deixa que a úlcera estrangulada vomite o seu veneno,
E o abutre da Ciência despedace
As vogais do mundo.
Um dia estas garras vermelhas de sangue
Soltarão a sua presa.
Os canibais agarram-se aos corações despedaçados
Que os débeis ofereceram em sacrifício...
Pedaços e fragmentos dispersos avermelham a terra;
No fim desta grande destruição
Surgirá um dia uma paz heróica.
Não terei medos ociosos
Mas aplacarei a angústia que brota.
Através dos afagos da plácida comodidade
Reuniu-se a debelidade...
Que arda em chamas e se torne cinza!
Os fiéis cobardes enchem as igrejas
Para adormecer o seu Deus com carícias;
Os débeis de coração acham que graças a orações assustadas
Trarão a paz aos seus lares.
Os avarentos não trazem oferendas
Mas levam seus mealheiros vazios;
Esperam, mediante a magia da linguagem,
Conquistar o mundo,
E conservar os seus ganhos
Cantando hinos santos.
Esperam conseguir que Deus esqueça...
Mas Ele não suporta esses insultos,
Nem as devoções falsas.
Se ainda há força no poder de Deus,
Então, após a penitência no fogo do sacrifício,
Nova vida numa nova terra
Brotará em nova luz.


(Tagore)

quarta-feira, setembro 06, 2006

Poesias de hoje e de sempre



Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu ventre calado
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.
(Desfecho, Miguel Torga)