segunda-feira, junho 19, 2006

A Jornada do Herói


Malevitch

A JORNADA DO HERÓI
Um ex-membro em busca de sentido

Mr. M.

Prefácio

Ao ler as diversas cartas nesta Web, fiquei motivado também a relatar a minha experiência, pois gostaria de poder ajudar as pessoas que sofreram e sofrem. Meu caso é parecido com tantos outros tão bem relatados. Por isso gostaria de me deter mais no DEPOIS do que no ANTES da fase Opus Dei. Isto é: e agora, o que fazer ?

Confesso que muitas vezes ao ler as cartas desta Web, passei muito mal devido às lembranças passadas. De certa maneira é como se voltasse a viver todos os tormentos por que passei. É como voltar a Auschwitz. Mas então por que continuo a ler os depoimentos? De certa forma, é uma forma de me solidarizar com todos vocês, caríssimos (as). De outra forma, foi a maneira que encontrei de me submeter a uma nova tensão, levando-me a questionar e buscar o sentido da vida.

Há tempos já havia esquecido do tema Opus Dei, mas sempre a minha curiosidade buscou algo relativo ao tema Ex-Numerário. Ou seja, algo mal resolvido no passado. Esta Web satisfez a minha curiosidade, trazendo a tona experiências similares a minha ou ainda, outras muito mais traumáticas. Nada sabia de ex-numerários que passaram décadas dentro da Obra. Pouco sabia de sacerdotes que deixaram a Obra.

Cada caso é um caso. Cada experiência, uma experiência. A reação de cada um pode ter sido completamente diferente de um outro. A nossa reação ao Opus Dei pode ter diferente em cada momento de nossa vida.

Caríssimos(as), em minha saída também traumática, estava padecendo de depressão e um pouco de insônia. Devido ao meu estado mental fui a um psiquiatra e comecei a fazer terapia. O psiquiatra em questão não era da Obra, o que pode ter facilitado a minha recuperação. Tentei alguns anti-depressivos até me adaptar ao Prozac que tomo até hoje. Quero compartilhar a minha experiência com vocês.

Mr. M*
*Mr. pois sou do sexo masculino, portanto ex-numerário. M é a minha inicial. Mr.M é também um mágico que revelou os truques de seus comparsas para o público da TV, sofrendo portanto grandes perseguições.

Introdução

Cada história pessoal é única e, portanto, cada processo de recuperação também é único. Gostaria de compartilhar as minhas reflexões para efeito ilustrativo, caso alguém tenha interesse ou mesmo curiosidade.

Vou referir-me a cada um de nós como um herói e então seguiremos esta narrativa percorrendo a jornada do herói, seguindo uma estrutura semelhante a dos mitos gregos. A descrição da jornada do herói pode ser obtida através da leitura dos livros de Joseph Campbell, "O Herói de Mil Faces" (original em inglês: The Hero with a Thousand Faces) e "O Poder do Mito" (original em inglês: The Power of Myth). Ou ainda no livro de Christopher Vogler, "A Jornada do Escritor" (original em inglês: The Writer´s Journey) cujos estágios da jornada são retirados deste livro e descrito a seguir:

1. Os heróis são apresentados no MUNDO COMUM, onde
2. recebem um CHAMADO À AVENTURA.
3. Primeiro, ficam RELUTANTES ou RECUSAM O CHAMADO, mas
4. num encontro com o MENTOR são encorajados a fazer a
5. TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR e entrar no Mundo especial, onde
6. encontram TESTES, ALIADOS E INIMIGOS.
7. Na APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA, cruzam um segundo limiar
8. onde enfrentam a PROVAÇÃO SUPREMA.
9. Ganham sua RECOMPENSA e
10. são perseguidos no CAMINHO DE VOLTA ao Mundo Comum.
11. Cruzam então o Terceiro Limiar, experimentam uma RESSUREIÇÃO e são transformados pela experiência.
12. Chega então o momento do RETORNO COM O ELIXIR, a bênção ou o tesouro que beneficia o Mundo Comum.

A palavra herói vem do grego, que significa "proteger e servir". A raiz da idéia de herói está ligada a um sacrifício de si mesmo. A jornada de muitos heróis é a história da separação da família ou tribo, equivalente ao sentido de separação da mãe, que uma criança vivencia. É, portanto, a nossa história de separação da Obra.

O herói é motivado pelos impulsos universais que todos podemos compreender: o desejo de ser amado e compreendido, de ter êxito, de sobreviver, de ser livre, de obter vingança, de consertar o que está errado, de buscar auto-expressão.

1. Mundo Comum

Cada um nós na Obra estava imerso num ambiente seguro, onde para qualquer doença sempre havia um remédio na prateleira.

Na maioria das histórias o herói é levado de seu mundo ordinário e quotidiano para um mundo especial, novo e estranho.

Por exemplo, na saga de Harry Potter, o mundo comum do herói é a entediante casa dos tios e o seu quarto limita-se a um pequeno espaço debaixo da escada.
Os testemunhos relatados nesta Web mostram de maneira abundante como era o nosso mundo dentro da Obra. Nossas normas de vida, nosso Apostolado, nossas conversas fraternas etc. Por este motivo, não vou me estender neste ponto. Passemos ao estágio seguinte.

2. Chamado à aventura

Para muitos, a rotina dentro da Obra acabou nos sufocando, pois o que nos faltava era um sentido. O que fazíamos já não fazia mais sentido. Não sabíamos mais o por quê das coisas. Apenas o fazer pelo fazer, de forma mecânica, repetitiva. Ou seja, tudo culminou numa grande perda do sentido da vida.

Algo estava errado e não funcionava mais. Não havia mais um motivo do porquê fazer as coisas.

Como em Matrix, deveríamos decidir entre tomar uma pílula de uma cor ou outra. Deveríamos escolher entre ser ou não ser da Obra. Cada alternativa implicava num mundo totalmente diferente. A nossa consciência detectou uma falha no sistema operacional. Não dava mais para trabalhar com DOS, tinha que partir para Windows (ou Linux, se alguns preferirem). O Sistema Operacional da Obra não se encaixava com o que havíamos entendido inicialmente. A teoria e a prática pareciam coisas distintas. As coisas não eram o que pensávamos ser.

Neste estágio o herói se sente desconfortável e perturbado. A sua auto-estima vai a zero.

O que ocorre neste estágio é a falta de sentido da vida. Podemos pensar que foi a rotina que nos desgastou. Mas não. Foi a falta de sentido na realização nas tarefas. Podemos ilustrar isto através do apostolado que fazíamos. Não víamos mais sentido em chamar pessoas à meditação, pois nem sentíamos que éramos amigos de tais pessoas. Invertemos a conduta. Deveríamos ser primeiro amigos de verdade e somente depois convidá-los para os meios de formação. Colocamos a carroça na frente dos bois. Das 100 almas deveríamos interessar-nos somente por 1 , 2 ou 3 no máximo. Tínhamos que rejeitar um amigo por não ser "apitável". Aquele amigo tão legal, que tinha tantos aspectos em comum comigo, deveria ser rejeitado e nos dedicar a algum outro que sequer gostávamos tanto. Deveríamos cortar uma amor e portanto um sentido de nossa existência.

Fomos contra o que Kant nos ensinou. Kant formulou o imperativo categórico de modo a que nós tratemos as outras pessoas sempre como um fim em si mesmo e não como um simples meio para se chegar a outra coisa. Ou seja, não devemos usar as pessoas. Não podemos brincar com suas emoções e sentimentos de forma indevida. Enxergávamos as pessoas apenas como meios para a minha santidade.

De acordo com Freud, em "O mal estar na civilização", o nosso sofrimento provém de três fontes: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos do seres humanos na família, no Estado e na sociedade.

Pois bem, dentre estas três, a terceira fonte merecerá maior destaque. Pois é mais fácil entender situações como um terremoto ou o câncer.

As regras da Obra existiam até então e vinham através de pessoas para lidarmos com pessoas. As regras não existiam somente em linguagem escrita, pois havia uma tradição oral. A nossa existência tinha experiências específicas e num certo momento ficamos confusos entre a teoria de um lado e a prática de outro. Era a experiência e hierarquia das pessoas mais velhas na Obra que acabavam sendo a palavra final. Para muitos a constatação repetitiva de incompatibilidade entre teoria e prática por vários anos acabou levando a uma paralisia na capacidade de se fazer escolhas, pois se chega num ponto em que não há mais espaço para decisões próprias. Na dúvida consultava-se sempre o diretor sobre isto ou aquilo.

A falta de sentido foi devido a uma quebra do paradigma. O paradigma é o jeito como "vemos" as coisas, em termos de percepção, compreensão e interpretação. Um paradigma é um modelo, uma representação da realidade, uma explicação, da mesma forma que um mapa. Um mapa é uma representação da realidade, mas não é a realidade. Pensávamos que era de um jeito, mas na verdade era de outro. Quando aprendíamos que, na verdade, era de outro jeito, explicavam que era porque em tal situação acontecia isto e aquilo. Agora se acontecesse isto, aquilo e não sei o que mais, então seria melhor consultar o diretor o que fazer. Em resumo, o mundo perfeito e seguro não existia mais. O que existia em nossa frente era o caos. O chão não existia mais. Estávamos flutuando.

A quebra de um paradigma pode se dar de maneira gradativa ou de um só golpe, na porrada. O exemplo mais fácil de se ilustrar é o caso de um membro da Obra se apaixonar por um colega de trabalho, que encontra todos os dias da semana.

Primeiro vem um encantamento com a pessoa amada. O membro acaba experimentando a experiência de amar alguém, desprendendo-se de si mesmo. Esta sensação de realização em seguida deve ser cortada, pois não é o que a Obra quer. Mas como uma experiência tão boa como esta, não pode vir de Deus? Por que Deus permitiu que isto acontecesse comigo? A pressão psicológica é tanta, que acaba levando a uma crise profunda de sentido, pois vai totalmente contra o projeto de vida que pensou ter. A pessoa é obrigada a negar o sentido do amor de seu amado e em conseqüência o sentido da vida. A pessoa entra em depressão. Não sabe que alternativa escolher.

3. Recusa do chamado

O que se passa na cabeça de um numerário em crise vocacional? Para muitos, foi o medo do inferno, da condenação de Deus. Muitas coisas conspiram para desistirmos de nossa jornada. Por exemplo, uma das frases mais fortes que li em alguma Crônica, se não me falha a memória, era que quem abandonasse a Obra sentiria o gosto do fel pelo resto da vida. Ou ainda, conforme uma palestra de formação foi dito "Vocação não se perde, se joga pela janela (ventana)". Ou mesmo a Bíblia trouxe-me grande inquietação, como em II Timóteo, 4, 10, "Demas me abandonou, por amor das coisas do século presente, e se foi para Tessalônica". Eu me sentia como um futuro Demas, infiel, impuro e mundano.

Nesta crise os sentimentos são altamente contraditórios. Lembramo-nos de coisas boas e coisas más. Afinal havia coisas boas também que nos agradavam como ser cristão em meio ao mundo corrente, no meio de nossas ocupações habituais, a necessidade de formação constante, amizades feitas dentro da Obra etc. Passamos do amor ao ódio, da confiança a suspeita, da esperança ao desespero.

Ao mesmo tempo, queremos e não queremos. Para aqueles que optam por não ser da Obra, pensamos fazer até coisas duvidosas, como escrever ao Papa para mudar a Obra. Inventamos desculpas, adiamentos de sair da Obra. É a recusa do chamado.

Neste vácuo existencial, podemos fazer querer o que os outros fazem - conformismo - ou então fazemos apenas o que os outros querem - totalitarismo.

Se nos encontrarmos neste estágio e não fizermos nada, provavelmente entraremos em colapso nervoso. Podem vir a insônia, a depressão, o stress, uma úlcera no estômago etc. Não há mais como fugir. Deve ser tomada a decisão.

De acordo com Viktor Frankl em "A questão do sentido em psicoterapia" (original alemão: Die Sinnfrage der psychotherapie), as ocupações entediantes, que excluem decisões próprias, levam mais freqüentemente à depressão e às doenças psicossomáticas do que o faz a sobrecarga.

Que sentido podemos dar a tamanho sofrimento? Será todo este sofrimento inútil? Fazemos-nos de vítimas neste estágio. Perguntamo-nos: Por que isto aconteceu comigo? Por que eu?

4. Encontro com o Mentor

A função do Mentor numa história é preparar o herói para o desconhecido, através da orientação, proteção, experimentação, treinamento, fornecimento de dons ou presentes mágicos. Assim como Obi Wan foi o Mentor de Luke Skywalker. Assim como o Dr. Xavier foi o Mentor dos X-Men. Assim como o sr Miyagi foi o Mentor do Karatê Kid. Assim como o Professor Dumbledore foi o Mentor de Harry Potter.

Na vida real temos na realidade diversos mentores, como pais, irmãos e irmãs mais velhas, amigos, amantes, professores, patrões, colegas de trabalho, terapeutas e outros. Da mesma forma que James Bond, o 007, recebe instruções de seu chefe, recebe consolo emocional de Moneypenny e recebe o arsenal de armas secretas do agente Q.

Viktor Frankl, no livro "Em busca de sentido, um psicólogo no campo de concentração", alerta que "do caminho de alta tensão psicológica para o de paz, não é de forma alguma livre de empecilhos. Está enganado quem acreditar que o recém-liberto do campo de concentração dispensa qualquer assistência psicológica". Em seguida, Frankl faz uma analogia com o que acontece com um mergulhador: "Assim como o trabalhador submerso corre perigo de ordem fisiológica caso abandone repentinamente a câmara de mergulho (onde ele se encontra sob enorme pressão atmosférica), da mesma forma a pessoa subitamente aliviada de enorme pressão psicológica poderá ser prejudicada em sua saúde espiritual e mental."

Desta forma, recomenda-se a todos que enfrentaram uma crise muito grande a procura de um profissional qualificado para tomar conta de sua saúde mental. O processo de recuperação pode levar tempo e dinheiro. Por exemplo, a consulta médica de um bom psiquiatra pode te custar em torno de U$ 100 a hora. Invista em você. Pague pelo preço. Além disso, você pode precisar tomar remédios. Não se assuste, não ache que somente pela força de vontade você irá superar os problemas. Muitas vezes você irá precisar de uma ajuda química. Abra a sua mente para esta postura, pois já é meio caminho andado. Esta ajuda química pode durar no mínimo 1 ano. Ou ainda, pode ser que você tome remédio pelo resto de sua vida.

O mentor irá te guiar nesta jornada mostrando outras realidades e trazendo conselhos preciosos. Assim como no filme "Homem-Aranha", o tio Ben disse a Peter Parker: "Com grandes poderes vem grandes responsabilidades." Ou ainda Morpheus para Neo em "Matrix": "Você é o escolhido".


5. Travessia do 1º Limiar

Após as quebras dos paradigmas, tomamos a decisão de deixar a Obra para trás. Quando decidi não ser mais da Obra, mas ainda estava em "domínio" da Obra, evitei os costumes de casa, como o cumprimento Pax. Mesmo que não tenhamos cumprido todos os trâmites burocráticos da saída, já estamos mentalmente fora.

A partir deste momento, o herói decide deixar aquele mundo perfeito da Obra e entra num mundo novo, estranho e hostil. Assustamo-nos facilmente com qualquer coisa.

As pessoas que deixamos para trás não mandam mais notícias, pois temem este mundo estranho e misterioso fora da Obra.

Uma lembrança que tenho após a saída foi a constatação de não reconhecer mais os modelos de carros nas ruas (o que agora é uma banalidade). Para mim eram todos iguais. Isto foi devido à prática de não ficar olhando para qualquer lado na rua e assim guardar a pureza.

5.1. A liberdade de escolha

Tudo posso neste mundo. Se quiser posso liberar as paixões mais vis, que procurei segurar por tanto tempo.

No mundo de fora, uma coisa é certa. Sou eu que faço as escolhas e mais ninguém. Sou eu o responsável pelas minhas decisões.

Neste mundo externo eu tenho plena liberdade de escolha. Diante de um estímulo ou situação, eu reajo da forma que eu escolher.

O meu comportamento é produto de minha própria escolha e não foi imposta por ninguém. Sou o responsável pelas minhas ações. Faço por que quero e ninguém pode determinar o meu querer.

Stephen Covey descreve o que é a Proatividade, conceito muito difundido em administração de empresas, que transcrevemos a seguir (e mais uma vez cita-se Viktor Frankl).

Um dia, nu e sozinho em um pequeno quarto, ele começou a tomar consciência do que mais tarde chamou de "a última das liberdades humanas" - a liberdade que seus carrascos nazista não podiam tirar dele. Eles podiam controlar completamente a situação e o ambiente, podiam fazer o que quisessem com seu corpo, mas o próprio Viktor Frankl era um ser dotado de autoconsciência, e podia atuar como observador de seu próprio destino, sua identidade básica estava intacta. Ele podia decidir, dentro de si, como aquilo tudo iria afetá-lo. Entre o que acontecia com ele, ou o estímulo, e sua reação, estava sua liberdade ou poder de escolher qual seria a sua reação.

No meio das circunstâncias mais degradantes que se possa imaginar, Frankl usou o dom humano da autoconsciência para descobrir um princípio fundamental da natureza do homem: Entre o estímulo e a resposta encontra-se a liberdade de escolha do ser humano.

Ao descobrir o princípio básico da natureza humana, Frankl desenhou um mapa acurado de si, a partir do qual começou a desenvolver o hábito principal e básico de uma pessoa supereficaz em qualquer ambiente, o hábito da proatividade.

Proatividade significa muito mais do que tomar a iniciativa. Implica que nós, como seres humanos, somos responsáveis por nossas próprias vidas. Nosso comportamento resulta de decisões tomadas, e não das condições externas. Temos a capacidade de subordinar os sentimentos aos valores. Possuímos iniciativa e responsabilidade suficiente para fazer com que as coisas aconteçam.

Pense na palavra responsabilidade - a habilidade para fazer sua escolha. Pessoas superproativas acostumam-se com a responsabilidade. Não colocam a culpa por seu comportamento nas circunstâncias, condições ou condicionamentos. Seu comportamento é produto de sua própria escolha consciente, baseada em valores, e não resultado de um condicionamento, baseado em sentimentos.

Uma vez que somos, por natureza, proativos, nossa vida só será conseqüência das condições e condicionamentos se deixarmos que estes fatores controlem nossa mente, por decisão consciente ou omissão.

5.2. A liberdade de expressão

Frankl descreve o que acontece na fase de libertação. "Descarrega-se a pressão que estava sobre ele durante tantos anos. A forma de contar dá a impressão de que a pessoa em questão estaria sob uma espécie de compulsão psicológica, tanta é a ânsia de contar, a necessidade de falar. (Pude observar este fenômeno também em pessoas, que, mesmo pó pouco tempo, estiveram sob pressão muito grande, como por exemplo em interrogatórios da Gestapo)."

Foi o que aconteceu comigo. Mesmo sendo tímido, passei a falar muito mais com as pessoas. Senti uma ânsia terrível de descarregar tudo que tinha dentro de mim.

Em Opuslibros, temos total liberdade de expressar o que sentimos durante muito tempo. Podemos extravasar todos os sentimentos pelos quais passamos. Estes relatos servem para nos solidarizar uns aos outros. Através desta Web podemos conhecer o que acontecia lá dentro por relatos dos que estão fora. E aquele mundo perfeito em que pensávamos estar também tinha as suas contradições e mazelas. Aqui podemos falar das coisas mais impensáveis dentro da Obra.

5.3. Aprender tudo de novo

Fora do campo de concentração, Frankl relata uns pensamentos estranhos que nos rondam a cabeça após a libertação. "Diga-me uma coisa - você chegou a ficar contente hoje ?" O outro responde:"Para ser franco, não!" E fica envergonhado, porque não sabe que com todos é assim. Literalmente, desaprendemos o sentimento de alegria. Será necessário aprender de novo a alegrar-se.".
Estar fora, como estar dentro, não é garantia de nossa felicidade, de nossa realização. Agora que estamos fora, devemos aprender tudo de novo.

6. Testes, aliados, inimigos

6.1. Teste da nossa família de sangue

No mundo de fora, a nossa relação com nossa família de sangue pode sofrer uma nova mudança. Acredito que aqueles que nasceram dentro de uma família de membros da Opus Dei, o sofrimento é muito grande pois pode existir uma rejeição da própria família. Este não foi o meu caso, mas pode-se constatá-los nos testemunhos.

Para aqueles que não tem pessoas na família da Obra, o apoio que recebemos deles é de fundamental importância. Este foi o meu caso e nele pude constatar o amor à liberdade de meus pais. Quando decidi entrar na Obra, meus pais ficaram muito tristes, mas respeitaram totalmente a minha escolha. Este respeito foi porque eles acreditavam que no que eu dizia, que era tornar-me membro da Obra e que seria feliz lá dentro. Quando decidi sair da Obra, acolheram-me tão felizes quando deixaram me ir. Meus pais amaram-me independente de eu ser da Obra ou não e nisto eu sou-lhes extremamente grato.

6.2. O teste da expansão: Carpe Diem

Quando eu era da Obra, um dos meus defeitos era a inflexibilidade, a minha radicalidade, ou seja, o oito - 8 ou oitenta - 80. Este defeito me levou a criar um outro que carrego até hoje. Dar me o direito de ter prazer. Uma conseqüência disto é não saber planejar e gozar as férias e os finais de semana. Outras pessoas manifestam-se por serem workaholics.

Uma outra característica minha era ser extremamente cruel no exame de consciência. Isto me levava a uma auto-crítica negativa muito severa.

Tudo isto é por que estava preso a mim mesmo. Deveria me expandir. Deveria sair das minhas próprias preocupações.

Na década de 90, um dos maiores best-sellers de administração foi o livro de Stephen Covey, Os 7 Hábitos das pessoas muito eficazes. Neste ponto ajudou-me muito a abordagem dada por Stephen Covey sobre o Círculo das Preocupações/Circula da Influência, do qual tomei alguns trechos: "as pessoas proativas concentram seus esforços no Círculo de Influência. Elas mexem com as coisas que podem modificar. A Natureza de sua energia é positiva, engrandecedora e ampla, o que leva ao aumento do Círculo de Influência". "As pessoas reativas, por outro lado, concentram os esforços no Círculo das Preocupações. Seu foco recai nas fraquezas dos outros, nos problemas do meio ambiente, nas circunstâncias que fogem a seu controle. Este foco resulta em atitudes acusatórias e lamentações, linguagem reativa e postura de eterna vítima."

Devemos esquecer de nós mesmos e olhar para fora de mim. Frankl diz: "Quero salientar que o verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou de sua psique, como se fosse um sistema fechado. Chamei esta característica constitutiva de "a autotranscendência da existência humana". Ela denota o fato de que ser humano sempre aponta e se dirige para algo ou alguém diferente de si mesmo - seja um sentido a realizar ou outro ser humano a encontrar. Quanto mais a pessoa esquecer de si mesma - dedicando-se a servir uma causa ou amar outra pessoa - mais humana será e mais se realizará".

Como estava totalmente fora da realidade, procurei fazer outras atividades paralelas, que me dessem prazer e ao mesmo tempo me conectava com outras pessoas. Obrigava-me a ter novos relacionamentos e novas amizades. Fiz várias coisas como aulas de teatro, dança de salão, guitarra, canto popular, línguas, fotografia etc. Isto me obrigava a sair de mim mesmo.

Numa de minhas férias resolvi viajar sozinho de mochila nas costas pela Europa, passando por diversas cidades. Treinei assim o meu inglês nestes países, o que posteriormente foi de grande valia profissional. Tirei várias fotografias. Conheci outras pessoas e outras culturas.

A experiência da expansão tem como objetivo sair de nosso isolamento e de nossa solidão. A solidão é um inimigo terrível. Após a Obra estamos sós. Se cortarmos os relacionamentos humanos, ficaremos presos em nosso limitado mundo, com os nossos próprios pensamentos que podem ser muito destrutivos e levar-nos à ruína. O nosso pensamento deve ser para fora e não para dentro.

6.2. Aliado: a capacidade de rir de si mesmo

Um grande aliado nosso é o bom humor e a capacidade de rirmos de nós mesmos. Creio que em nossa busca pela perfeição na Obra, muitos se caracterizam pelo perfeccionismo. Ou ainda, tem medo de errar. Não admitem o erro, pois vivem nos mundo das idéias, onde tudo é perfeito. Podemos errar e rirmos dos nossos erros. O verdadeiro filósofo é aquele que sabe viver a vida com bom humor, com seus erros e acertos e não aquele que escreve um imenso compêndio.

Frankl diz: "Também o humor constitui uma arma da alma na luta por sua autopreservação. Afinal é sabido que dificilmente haverá algo na existência humana tão apto como o humor para criar distância e permitir que a pessoa se coloque acima da situação, mesmo que somente por alguns segundos."

Não me levar tão a sério significa que posso mudar de posição. Hoje eu penso assim. Amanhã posso pensar de maneira radicalmente diferente. Os políticos sabem utilizar muito bem esta arte e achamos deplorável, contraditório e ridículo. Nas épocas das eleições, os políticos prometem de tudo na campanha. Depois que assumem um cargo no governo, tudo o que prometeram não vale mais. Mudam tranqüilamente de posição. Afinal o contexto agora é outro. Aprendamos com os políticos e melhoremos o nosso humor.

6.3. Aliado: "Acostuma-te a dizer que sim"

Ao longo da jornada do herói, são quebrados diversos paradigmas em toda a trajetória. Um destes paradigmas seria o ponto nº 5 de Caminho, "Acostuma-te a dizer que não".

A nossa tradição judaico-cristã enfatiza muito as coisas pelo NÃO. Lembro-me que nas meditações os temas falavam justamente pelo seu oposto. As aulas de filosofia nos cursos anuais também definiam as coisas da filosofia moderna pelo que não eram. Por exemplo, numa meditação com o tema da alegria, havia uma definição extensa do que era a tristeza e somente nos dois minutos finais da meditação falava-se um pouquinho da alegria. Ou seja, não se fala do que não se conhece. Fala-se daquilo que vivemos.

O mal é a ausência do bem. Mas o que é o bem ? Fazer o bem, de modo bem feito, é mais difícil. É mais fácil destruir e criticar. No entanto escrever um poema, escrever uma música e pintar um quadro são coisas mais difíceis de serem feitas do que fazer críticas de arte em cima delas. Fazer estas obras de arte bem feitas é que é difícil. Contemplá-las é fácil, quando estas possuem uma beleza única.

Adotemos então uma visão mais positiva em relação à vida, sem juízos prévios e preconceitos.

7. Aproximação da Caverna Oculta

No mundo exterior como tudo podemos, podemos cair em outras armadilhas da vida. Conforme Frankl, podemos fugir da busca do sentido da vida mergulhando-nos por uma "vontade de poder, incluindo a sua forma mais primitiva forma, que é a vontade de dinheiro. Em outros casos, o lugar da vontade de sentido frustrada é tomado pela vontade de prazer. É por isso que muitas vezes a frustração existencial acaba em compensação sexual. Podemos observar neste casos que a libido sexual assume proporções descabidas no vazio existencial."

Neste mundo podemos cair na velha armadilha de somente nos preocuparmos com dinheiro, sexo e poder no trabalho. Daí deixamos de perguntar sobre o sentido de nossa vida e vivermos alienados.

Frankl em "A questão do sentido em psicoterapia" (original alemão: Die Sinnfrage der psychotherapie) tem uma interessante passagem: "Frente à morte, porém está a vida, e se este homem está certo, então também nossa vida seria toda sem sentido, se nós nada mais desejássemos que colher prazer - o máximo possível e os maiores prazeres. O prazer em si não é nada que consiga das sentido à existência; portanto a falta de prazer também não está em condições de retirar o sentido da vida."

Podemos ser tentados a ficar na superficialidade e não nos aprofundarmos na questão primordial, que é: Qual o sentido da vida ? Antes a resposta era dada pela Obra. Agora não temos a Obra e nós temos que dar esta resposta.
Podemos fugir de várias coisas, menos de nós mesmos. Antes mesmo de entrarmos na Obra já nos perguntávamos sobre o sentido da vida. Buscamos este sentido na Obra e não a encontramos. Agora estamos fora da Obra e a mesma pergunta paira no ar.

O herói ainda não venceu a batalha. Não sabemos situar a Obra em nossa vida. Muitos podem estacionar neste estágio da jornada. Ainda não deram o grande salto.

8. Provação Suprema

Ou seja, o herói cresce e se transforma. Como identificar o personagem principal numa história? A melhor resposta é: aquele que aprende ou cresce mais no decorrer da história.

Caso a decisão de ter abandonado a Obra não leve necessariamente a um crescimento do herói de nada valerá esta jornada. A alienação continua, independente de se continuar ou não na Obra.

Vejamos, se optar por ficar na Obra de forma conformista, não haverá crescimento. Pois qualquer mudança é exigente. Afinal sempre foi assim, por que mudar? Este é um exemplo de alienação conformista.

Outro tipo de alienação é a dos revoltados. Optam por não ser da Obra e só reclamam. A culpa é sempre dos outros. São as eternas vítimas. O mundo conspira contra mim. Ficam presas ao problema e não à solução. São os apaixonados pelo problema. Para estes também não há o crescimento, pois pararam neste estágio e não prosseguiram na jornada do herói. O sofrimento de nada valeu. Ocorre uma deformação no caráter e o que se encontra é só amargura. A amargura vem do contato com experiências diversas de outras pessoas que passaram por tamanho sofrimento, mas não encontram um sentido deste sofrimento, somente superficialidade e inércia. A reação que muitos têm é de fugir e não querer ouvir e saber de mais nada sobre esta experiências de sofrimento.

8.1. Revolta contra o mentor

Em nossa luta podemos achar que ninguém nos compreende. Podemos ficar chateados com o nosso mentor e abandonar a luta. Podemos ser tentados a interromper a nossa terapia por conta própria.

Caríssimos (as), para aqueles que tomam remédios, digo-lhes que somos tentados a evitar os remédios, pois o nosso orgulho e nossa vaidade não admitem a nossa fraqueza e debilidade. Já vi alguns casos de pessoas que começam a tomar remédios e logo desistem, pois não admitem a necessidade de uma ajuda externa (química). E logo depois sofrem nova crise. Ou seja, o processo de recuperação se alonga e se atrasa mais. Isto é puro orgulho. Se o médico te prescrever um remédio, obedeça. Afinal, este profissional estudou por anos e conhece os mistérios da mente. Quanto à escolha do médico, peça recomendações de pessoas conhecidas ou familiares. Se não gostou de um médico, troque e procure outro. Pois se não há confiança não se faz progresso. O progresso de recuperação depende somente de nós mesmos. Terapia não é coisa de loucos. Todos nós precisamos. Gente que foi da Obra e gente que nem sabe o que é isso.

8.2. Quebrando o paradigma da Obra

Citando de novo Frankl, "De tudo isso podemos aprender que existem sobre a terra duas raças humanas e realmente apenas essas duas: a "raça" das pessoas direitas e a das pessoas torpes. Ambas as "raças" estão amplamente difundidas. Insinuam-se e infiltram-se em todos os grupos: não há grupo constituído exclusivamente de pessoas decentes, nem unicamente de pessoas torpes. Neste sentido não existe grupo de "raça pura", e assim também havia uns e outros sujeitos decentes no corpo da guarda."

Caríssimos (as), ser ou não ser da Obra, não me faz ser do bem ou do mal. Existe sim a combinação de alternativas. Expliquemos de forma bem matemática esta combinação de 2 a 2, resultando em 4 grupos. Tem gente boa na Obra que ficou e que se realiza lá, trabalhando de forma incansável e batalhadora. Também existe gente mal na Obra, que fez e faz sofrer a muitos(as). E do lado de fora da Obra também. Tem muito ex-numerário(a) que é gente boa e busca ser feliz na terra. Mas também há muito ex-numerário(a) que é gente do mal, é infeliz e quer que todas as pessoas sejam infelizes.

Mais uma vez Frankl, "A bondade humana pode ser encontrada em todas as pessoas e ela se acha também naquele grupo que, à primeira vista, deveria ser sumariamente condenado. As delimitações se sobrepõem. Não podemos simplificar as coisas dizendo: "Os prisioneiros são anjos, e os guardas são demônios".

Como estamos do lado de fora da Obra, pensemos bem assimetricamente, sendo o advogado do diabo contra nós mesmos, de forma a quebrar mais um paradigma. Frankl diz " Contrariando o que de modo geral é sugerido pela vida no campo de concentração, ser guarda ou supervisor e ter uma atitude humana para com os prisioneiros sempre será de certa forma um mérito pessoal e moral". Como exemplo, Frankl conta que um dos guardas do campo de concentração comprava remédios com seu próprio dinheiro e dava para os prisioneiros. Após a libertação dos prisioneiros, eles próprios protegeram este guarda do exército oposto de forma que fosse entregue dignamente. Ou seja, temos lembranças de pessoas boas e honestas na Obra que praticaram o bem conosco.

Continuando nesta linha de raciocínio, Frankl diz "Em contrapartida, é particularmente deplorável a baixeza do prisioneiro que inflige um mal a seus próprios companheiros de dor." É muito triste vermos pessoas que não puderam captar o sofrimento de um companheiro e ainda assim ridicularizá-lo. Em algumas trocas de correspondências no Opuslibros, vemos que tem gente com certo sarcasmo nas colocações para outros ex-membros. Cada experiência foi única e dentro de um determinado contexto. Tem gente que pegou o Dr. Mengele no campo de concentração e sofreu muitíssimo. Tem gente que pegou uma pessoa mais humana e não sofreu de forma tão intensa. Nem por isso a primeira vítima é superior e com mais direito de proclamar que sofreu mais e é, portanto, mais digna. Ninguém tem direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça.

No mundo real, não existem somente duas posições. Pró-Opus Dei e Anti-Opus Dei. Existe uma terceira via. Nem contra e nem a favor, pois já não dou tanta importância para este tema. Não troquemos uma obsessão por outra. Não passemos do amor ao ódio.

8.3. Novas abordagens do meu relacionamento com a Obra

Podemos encarar o Opus Dei como uma ex-namorada (o). Quando a conhecemos, pensamos ter encontrado o amor de nossa vida. Foi uma paixão avassaladora. Vivemos até debaixo do mesmo teto. Vivíamos a Obra 24 horas por dia. Até enfrentamos a nossa família, os nossos amigos e colegas para ficar na Obra. Até namorávamos escondidos de nossos pais e não contamos que já estávamos até comprometidos (ou seja, escrevemos a carta ao Padre). No entanto, quando nos conhecemos melhor, vi que havia diferenças em nossa forma de ser. Tínhamos costumes diferentes. Víamos a realidade de uma forma diferente. Não ia dar certo. Mas seu amor por mim era extremamente exigente. Falei que queria dar um tempo. Estava me sentindo sufocado. Estava me sentindo vigiado. O amor é possessivo. Quando amamos, queremos ter a pessoa amada. A Obra queria me ter e fez todo o esforço possível para que não a abandonasse. Neste esforço acabou falando até algumas besteiras, que acabaram me ferindo. A Obra não queria dividir o seu amor por mim com mais ninguém. Ninguém mais poderia me amar. Pelo nosso bem e pelo bem da Obra, resolvi me ir, pois este amor não daria mais certo. Foi melhor assim. Acredito que esta ex-namorada (o) pode ter encontrado outra pessoa e esta pessoa pode estar muito feliz. Esta outra pessoa, não é nem melhor, nem pior que eu. É simplesmente outra pessoa. Para mim, o que acontece entre elas agora, não me diz mais respeito. Nem me interessa falar a esta outra pessoa dos defeitos da minha ex -namorada, por que todos temos defeitos. Talvez estes defeitos sejam até compatíveis com esta outra pessoa. Talvez esta outra pessoa até goste destes defeitos e não os veja como defeitos.

Por isso não sou pró e nem anti. Muitos diriam, mas se não é anti Opus Dei, por que não volta a Obra. Por que não tem nada haver a nossa relação. Não volto com uma ex-namorada, por que não tem mais nada haver. Tentei uma vez e não deu certo. Não houve combinação química. Não houve entrosamento.

Este caso relatado anteriormente foi o que se passou comigo. Nesta relação entre eu e a Obra, quem rejeitou o amor fui eu. Eu fui o ator. Eu rejeitei este amor.

Ao fazer esta constatação, lembrei me de casos diferentes ao meu. Esquematizei então os possíveis cenários entre esta relação de uma pessoa e a Obra, a saber:

- EU rejeitei a OBRA; a OBRA amou ME;
- A OBRA rejeitou-ME; EU amei a OBRA;
- A OBRA e EU rejeitamo-nos reciprocamente;
- A OBRA e EU amamo-nos reciprocamente.

No caso "A OBRA rejeitou-ME; EU amei a OBRA" é visto em alguns depoimentos e constatei este caso numa pessoa no Centro onde vivi nos meus últimos tempos de numerário. A Obra chega, diz-me que não tenho vocação ao Opus Dei e que devo pedir a dispensa. É o que chamamos de levar um pé no traseiro. É quando nos apaixonamos por alguém, só que a pessoa amada não corresponde ao nosso amor. É o fim do mundo, pois sentimo-nos rejeitados pela única pessoa no mundo que não nos podia rejeitar. Nos meus últimos dias fiquei um tanto confuso com este caso, pois eu queria sair só que me falavam para ficar. Para quem queria ficar, os diretores diziam que era para sair. A Obra, através de seus diretores, chegaram à conclusão que estas pessoas não deveriam ser mais da Obra. O nosso jeito de ser não combinava com o jeito Opus Dei. Esta constatação também foi verificada após termos experimentado em conjunto esta convivência.

Neste caso a nossa auto-estima fica muito baixa na pessoa rejeitada. Afinal, será que não sou bom? Não sou digno de ser amado?

Quando estamos no mundo real somos sujeitos a este tipo de situação em relação ao amor humano. Podemos ficar extremamente apaixonados por alguém. Declaramos o nosso amor a esta pessoa e a resposta é um não. A pessoa amada pode ser muito bondosa e até dizer: "Olha eu gosto de você, mas como amigo, entende? Podemos continuar amigos, mas não amantes". Como já dissemos, o amor é possessivo. Mas se não dá para sermos amantes, será muito difícil sermos amigos. É difícil suportar a constatação que nossa amada está a espera de um outro e este outro não sou eu. Por isso é normal nos afastarmos. Por isso, quando eu rejeito a Obra e a Obra me ama, a Obra não me procura mais.

No caso "A OBRA e EU rejeitamo-nos reciprocamente", ambos chegaram à conclusão que não se queriam mais um ao outro. Este é o caso onde o término da relação dá-se de maneira mais amigável. Como se diz em alguns relatos, com um abraço no final. Talvez este seja um dos casos mais raros de se acontecer. Em alguns casos deve ocorrer num momento mágico. Ambas as partes chegam nesta conclusão ao mesmo tempo. Caso um se adiante na frente do outro, a parte que ficou para trás pode ser que se sinta um tanto traída e reveja a posição e se manifeste até de forma contrária.

No último caso "A OBRA e EU amamo-nos reciprocamente" são para aqueles que ficam e se realizam lá dentro. Esta também é uma possibilidade que não podemos negar que exista. Tem gente lá dentro que está feliz, pois encontro o sentido da vida lá dentro da Obra.

A metáfora apresentada da Obra ser caracterizada como uma pessoa demonstra que a quantidade de experiências/relacionamentos/cenários é infinita. Poderíamos colocar estes cenários em termos de duração. Ou seja, para aqueles que fizeram a fidelidade, a oblação, aqueles que ficaram somente uns meses, aqueles que ficaram somente uns anos etc.

Na leitura de alguns testemunhos, pude notar também que para alguns casos a abordagem da Obra conforme descrito anteriormente, isto é, como uma ex-namorada(o), ex-mulher ou ex-marido, poderia não ser um tanto adequada, devido a falta de elementos de contexto que pudessem dar um significado mais profundo para a pessoa afetada pela falta de sentido.

Estimulado por buscar compreender um ponto de vista diferente do que eu passei, conforme vários relatados de testemunhos, acabei elaborando uma outra abordagem que espero que possa ajudar alguém.

Nada melhor que o futebol para ilustrar esta abordagem, devido à paixão que este jogo desperta em vários países e assim quebrarmos mais um paradigma.

Nesta abordagem comparativa, o que nos une é paixão pelo futebol. Como temos a Obra em diferentes países, vamos ilustrar com os seus respectivos nomes de forma a ilustrar melhor.

No Brasil, o adversário mais temido na Copa do Mundo é a Argentina. Sem dúvida, este é um nome que dá medo nos brasileiros, pois é, sem dúvida alguma, um dos adversários mais fortes do Brasil. E revelo que um dos defeitos mais gritantes nos torcedores brasileiros é torcer contra a Argentina. Ou seja, se o Brasil for eliminado nos jogos eliminatórios da Copa do Mundo, muitos brasileiros gostam de torcer CONTRA a Argentina. Existe um certo prazer doentio neste tipo de abordagem, o que se trata de uma tremenda besteira. É uma perda de tempo. É coisa de frustrados que não admitem a alegria dos outros. Se vão ao inferno, querem levar o maior número possível de pessoas juntos.

Fazendo esta abordagem, lembrei-me da Copa do Mundo de 1978 na Argentina. Nesta Copa do Mundo, o Brasil seria eliminado caso a Argentina ganhasse do Peru por uma diferença de 6 (SEIS) Gols. O resultado deste jogo foi coincidentemente de SEIS A ZERO. Neste momento, o Brasil caiu fora da Copa do Mundo e a Argentina continuou nos jogos até ser campeão do Mundo. Para este fato em concreto poderíamos falar, opinar, escrever de montão. Poderíamos falar que achamos uma tremenda injustiça e outras coisas mais. No entanto, existe um fato inegável que não dá mais para voltar. A Argentina foi campeã do Mundo em 1978. Diante deste fato, acharia uma tremenda perda de tempo alguém pedir para a FIFA que retirasse o TÍTULO de campeão mundial da Argentina. O mesmo com relação ao TÍTULO de Santo de Josemaría Escrivá dada pela Igreja Católica. Não dá mais para discutir isto. Isto já foi e não se muda mais. Se foi justo ou injusto um título, não adianta mais discutir caso isto não acrescente algo a minha existência.

Neste ponto, creio que não dá mais para mudar a Igreja Católica. Isto pode me afetar caso continue fiel ao Catolicismo. No entanto, podemos de novo voltar a abordagem de encarar estas instituições (Igreja e Obra) como pessoas. Não posso pedir a minha mãe que deixe de amar um outro irmão. Este meu irmão pode ter tido mais privilégios em relação a minha pessoa, pode ter sido uma pessoa tremendamente má comigo, pode ter herdado uma fatia maior da herança da família. Mas não posso pedir para minha mãe que não o ame. Pois ela o ama com seus defeitos, que muitas vezes ele sequer admite que os tenha. A minha conciliação deve ser com minha mãe. Isto é o que devo buscar.

Noto nos testemunhos que existe para muitos uma certa tristeza com a Igreja Católica devido à canonização de Josemaría Escrivá. Na verdade eu nem me considero mais católico (o que pode ser motivo de escândalo para muitos e que agora, irão medir milimetricamente cada frase deste testemunho), mas nem por isso deixo de entender o que passa na cabeça das pessoas que continuam católicas e que necessitam de meios de uma reconciliação.

Para ajudar nesta reconciliação, tenho uma outra abordagem que pode ajudar a dar um sentido a mais nesta reconciliação. As diretrizes desta abordagem foram dadas pelo meu Mentor, ou seja, o médico psiquiatra que me atende. A abordagem é a seguinte: a Obra é totalizante (que é diferente de ser totalitária).

Quando decidimos ser da Obra, foi-nos entregue um pacote imenso de coisas que nem sabíamos direito. Não dava para escolher somente aqueles aspectos que mais nos interessavam. Deveria engolir o pacote inteiro. Isto se dá muitas vezes nos pacotes turísticos que compramos quando fazemos uma viagem de férias. Nos pacotes turísticos, podem existir coisas que não me agradam nada, como por exemplo, submeter-me aos horários de saída e entrada no ônibus que vai para determinado ponto turístico. Ou ainda, quero permanecer num determinado ponto turístico, mas o guia de turismo me adverte que já devemos sair. Ou ainda, não quero passar na lojinha para comprar lembranças, mas obrigam-nos a fazer diversas paradas em diversas lojinhas da rede de turismo. Num caso extremo destes, acho que é preferível não comprar mais pacotes turísticos. No entanto, daí vou ter que ter o trabalho de fazer o meu próprio roteiro. Vou ter que decidir o que fazer. Vou ter que reservar o hotel, comprar as passagens de ônibus ou avião, estudar os mapas etc. As opções de escolha serão determinadas por mim. No caso do pacote turístico, é mais cômodo, pois tudo já está esquadrinhado. Escolheram por mim. Não fui eu que escolhi. Algumas pessoas se submetem a esta situação por opção própria e até gostam deste tipo de passeio. Também numa experiência com pacote turístico posso aproveitar somente o que me interessa e repetir esta experiência do meu jeito. Não há mal algum nisto. É neste ponto que quero me deter mais. Por exemplo, tem ex-membros que ainda se emocionam quando escutam determinadas frases da Obra, pois ainda possuem sentido para elas. Não há problema algum de gostar destas frases ou de determinados costumes da Obra. O problema é que certas experiências só podem ser sentidas lá dentro da Obra e mais em nenhum outro lugar. E se você quer ter estas experiências de novo, somente lá você poderá tê-las. Não dá para ganhar tudo na vida. Algumas coisas nós perdemos e algumas coisas nós ganhamos.

Stephen Covey explica isto de maneira formidável. Os problemas que enfrentamos encaixam-se em uma das três categoria seguintes: controle direto (problemas que envolvem nosso próprio comportamento); controle indireto (problemas que envolvem o comportamento dos outros) e controle inexistente (podemos em que não podemos interferir, como nosso passado ou realidades situacionais). E mais na frente: Problemas de controle inexistente implicam assumir a responsabilidade de mudar nossa atitude em relação ao que não podemos modificar - aprender a sorrir, a aceitar de modo genuíno e pacífico estes problemas, aprender a conviver com eles, apesar de não gostarmos do fato. Desta forma, impedimos que estes problemas nos controlem. Agimos de acordo com a máxima contida na oração dos Alcoólicos Anônimos: "Senhor, dai-me a coragem para mudar as coisas que podem ser mudadas, a serenidade para aceitar as coisas que não podem mudadas e a sabedoria para distinguir umas das outras."

8.4. Final da batalha

Podemos finalizar este estágio de nosso conhecimento em relação à Obra, conforme Hegel denominou de tese, antítese e síntese.

Na tese: eu AMAVA a Obra.
Na antítese: eu ODIAVA a Obra.
Na síntese: eu PERDÔO a Obra, ou ainda, eu COMPREENDO a Obra.
Caríssimos (as), errar é humano, mas perdoar é divino.
Eu perdôo, mas não esqueço. I forgive it, but I can´ forget it.

9. Recompensa

De acordo com Frankl, podemos descobrir o sentido na vida de três diferentes formas: 1. criando um trabalho ou praticando um ato; 2. experimentando algo ou encontrando alguém; 3. pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável. A primeira, o caminho da realização é bastante óbvio. A segunda maneira de encontrar um sentido na vida é experimentando algo - como a bondade, a verdade e a beleza - experimentando a natureza e a cultura ou,ainda, experimentando outro ser humano em sua originalidade única - amando-o. Amor é a única maneira de captar outro ser humano no íntimo de sua personalidade.

9.1. Um novo amor

Em nossa jornada, os heróis não se tornam heróis até a crise. Antes disso, são apenas aprendizes. Não merecem ser amados de verdade enquanto não mostrarem sua disposição para o sacrifício. Após a provação suprema, o herói encontra a sua amada, fazendo-se digno de merecê-la.

Na etapa de expansão conhecemos diferentes pessoas e podemos encontrar lá a mocinha do filme. De maneira natural e não forçada. Esta pessoa pode ser tanto uma magrinha de 45 kg, como uma gordinha de 93 kg, conforme experiências relatadas nas correspondências. Pode ser uma mocinha que saiba até ler mapas e fale pouco, apesar de ser meio improvável. Também pode ser que a heroína encontre o mocinho. Este pode ser gorducho e careca, como também alto, esbelto e carinhoso. Também pode ser que o mocinho da heroína, seja uma pessoa que se interesse por todos os assuntos de sua mulher, conversando ininterruptamente com ela, apesar também de ser meio improvável. (ver PEASE, B; PEASE, A. "Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor"/em português; "Why men don´t listen and women can´t read maps"/em inglês; Por que los hombres no escuchan y las mujeres no entienden los mapas: Porque somos tan diferentes y que hacer para llevarlo bien/em espanhol)

Do nosso novo amor, nascem os nossos filhos. Podemos criá-los de forma amorosa, com muita compreensão e diálogo.

De acordo com Frankl, o amor não é interpretado como mero epifenômeno de impulsos e instintos no sentido de uma assim chamada sublimação. O amor é um fenômeno tão primário como o sexo. Normalmente, sexo é uma modalidade de expressão de amor. O sexo se justifica, e é até santificado, no momento em que for veículo do amor, porém apenas enquanto for. Desta forma, o amor não é entendido como mero efeito colateral do sexo, mas o sexo é um meio de expressar a experiência daquela união chamada amor.

9.2. A realização no trabalho

Frankl cita que a realização na criação de um trabalho é um tanto óbvia. Olhando de forma assimétrica, a falta de trabalho também não seria motivo para não se ter um sentido na vida. Um ex- membro pode encontrar diversas dificuldades para encontrar um emprego caso tenha se afastado do mundo e se limitado aos trabalhos internos. Atualmente existe uma crise mundial do emprego, tornando mais grave esta situação. E a nossa sociedade industrial enaltece a necessidade de uma utilidade econômica para cada indivíduo, ou seja, se não produzo sou um inútil e a vida não tem sentido. No entanto Frankl cita que os doentes psíquicos encontram-se pronunciadamente nas camadas médias e superiores, ou seja, pessoas que vão bem externamente, mas não são felizes. Pessoas bem pagas e vivem em situação confortável. São pessoas ativas, mas sem um sentido na vida.

Levando o raciocínio da utilidade ao extremo chega-se facilmente à eutanásia, ao aborto e aos campos de extermínio. Em contraposição à utilidade coloca-se a dignidade de cada pessoa.

Voltando ao problema do desemprego, pode-se preencher a vida de sentido através da realização de um trabalho voluntário. Com isto pelo menos apenas parte do problema, mas não se tira o sentido da vida.

10. Caminho de Volta

Em nossa jornada, enfrentamos os mais diversos inimigos. Passamos pelos lugares mais estranhos e distantes do planeta. Podemos ter fugido de tudo. Podemos ter mudado de cidade, país, continente etc. Podemos ter mudado de profissão. Podemos ter novos amigos que sequer ouviram falar da Obra. Mas não podemos fugir de nós. Não podemos fugir da eterna pergunta: "Quem sou eu?". Não podemos fugir da ordem: "Conhece-te a ti mesmo".

De acordo com Frankl: "É preciso deixar perfeitamente claro, no entanto, que o sofrimento não é de modo algum necessário para encontrar sentido. Insisto apenas que o sentido é possível a despeito do sofrimento - desde que, naturalmente, o sofrimento seja inevitável. Se ele fosse evitável, no entanto, a coisa significativa a fazer seria eliminar a sua causa, fosse ela psicológica, biológica ou política. Sofrer desnecessariamente é ser masoquista e não heróico."

Ou seja, para dar sentido a vida não preciso me desesperar para me impor um sofrimento. Não preciso voltar a bater na porta de um centro da Obra, dizer Pax e pedir para escrever ao Padre. Seria o mesmo que pedir para alguém voltar ao campo de concentração. O caminho de volta do herói não é o caminho de retorno à Obra. É o caminho de volta a uma nova vida.

O caminho de volta do herói é caracterizado por cenas de perseguição. Quando o herói resolveu a empreender a jornada ele sabia que haveria perseguições de todos os lados. Antes de escrever este testemunho sabia que haverá várias pessoas que não concordarão com o que estiver escrito. Tive medo de ter de enfrentar diferentes opiniões e outros pontos de vista. Tive medo até de uma possível perseguição da Obra, caso me descobrissem.

Tudo pode ser objeto de crítica. Alguns argentinos podem achar deplorável o comentário da Copa do Mundo de 1978. Algumas mulheres podem achar lamentável falar do peso, pois isto é uma obsessão mundial feminina. Alguns podem achar que como encontrei um amor terreno a coisa fica mais fácil. Alguma pessoa da Obra pode ter entrado neste site e achar horripilante a metáfora empregada entre a Obra e um campo de concentração.

Caríssimo (as), um dos meus maiores defeitos quando era da Obra era me preocupar excessivamente com o que os outros falavam de mim e com as críticas. Isto já não me importa mais. Se as criticas forem construtivas, que sejam bem vindas. Se forem destrutivas, esqueço-as.

Para ilustrar um dos meus motivadores, ilustro com uma historinha muito conhecida em administração de empresas. Um homem caminha na praia e avista um menino ao longe jogando estrelas do mar de volta à água. Estas estrelas do mar existiam aos montes na praia e estavam todas morrendo. Todo este trabalho do menino parecia ser inútil a este homem. Então o homem se dirigiu ao menino e perguntou. "Que diferença faz jogar estas estrelas de volta ao mar? São muitas. Não vê que não irá terminar a tarefa?. Não faz a mínima diferença". O menino responde olhando para estrela do mar que está na sua mão: "Para esta faz diferença". O homem então compreende a diferença e começa a ajudar o menino a jogar as estrelas de volta ao mar.

Os testemunhos de ex-membros da Obra são infinitos e em muitos nota-se muita dor. Fiquei motivado a dar algum tipo de ajuda para quem está sofrendo e isto fiz através de meu testemunho. Se conseguir ajudar ao menos uma estrela do mar, ficarei contente.

11. Ressurreição

Para que uma história fique completa, mais uma vez o herói deve enfrentar a morte e depois renascer, antes de ingressar de volta ao mundo comum.

O prefácio à edição norte-americana de 1984, de Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl, feita Professor Gordon W. Allport, ex-professor na Universidade de Harvard, começa assim: "O escritor e psiquiatra Viktor E. Frankl costuma perguntar a seus pacientes que estão sofrendo muitos tormentos graves e pequenos: Por que não opta pelo suicídio? É a partir das respostas a esta pergunta que ele encontra, freqüentemente, as linhas centrais da psicoterapia a ser usada. Num caso, a pessoa se agarra ao amor pelos filhos; em outro, há um talento para ser usado, e, num terceiro caso, velhas recordações que vale a pena preservar. Tecer estes débeis filamentos de uma vida arruinada para construir com eles um padrão firme, com sentido e responsabilidade - este é o objetivo e o desafio da logoterapia, versão da moderna análise existencial elaborada pelo próprio Dr. Frankl".

O vácuo existencial deixado em nossa alma, após a retirada da Obra em nossa vida deve ser preenchida.

O sentido da vida difere de pessoa para pessoa, de um dia para outro, de uma hora para outra. O que importa, por conseguinte, não é o sentido da vida de um modo geral, mas antes o sentido específico da vida de uma pessoa em dado momento.

Deixamos a Obra para trás, sem mais angústias que me paralisam a vida. O que importa agora é olhar para frente e preencher a nossa vida com algo positivo. Há muito o que fazer. Há muito para amar. Há muito para compreender. Há muito perdoar.

Cada um teve uma experiência com determinado grau de dor. Uns mais outros menos. Compreender esta dor já é parte do novo caminho a ser trilhado. Para compreender desta dor passada posso colocá-la para fora, falar, escrever e analisar. Esta foi uma experiência única que só você conhece.

De todo este sofrimento que cada um passou, transformou-nos numa pessoa mais humana. Aqueles que sofreram e amadureceram, reconhecem outras pessoas que passaram por tribulações completamente diferentes e nelas enxergam a beleza de sua existência. Dizem que na vida só uma coisa é certa, que é a morte. Pois outra coisa certa em nossa vida é o sofrimento. Em minha família de sangue, tenho um tio e uma tia que perderam seus filhos recém-nascidos, por complicações no parto. Somente uma filha sobreviveu. Esta filha teve uma vida vegetativa por mais de 20 anos. Caríssimos (as), estes meus tios são as pessoas mais humanas que já conheci. Também foram um dos meus apoios após a minha saída da Obra. Suas compreensões da vida, suas conversas, são de pessoas especiais, que dificilmente encontramos na vida. Será que são tão especiais por que sofreram ou por que sofreram são tão especiais? Os que sofrem tem uma grande oportunidade de crescimento. De maneira semelhante, os tios de minha esposa também tiveram um sofrimento muito grande. Perderam um dos seus filhos atropelado por uma moto aos 17 anos. Estes tios de minha esposa também são pessoas especiais para ela. São diferentes. Têm algo a mais.

O amadurecimento em cada um não é transmissível. Por mais que falemos aos outros, muitos não compreenderão. Somente quem passou por isto sabe. Por mais que eu fale para um amigo não fazer determinada coisa, devido a uma posição pessoal, posso não conseguir convencê-lo. Chega numa hora que deixamos que faça. Pode ser que este amigo quebre a cara ou saia antes da situação.

Aqueles que sofreram e amadureceram sabem colocar-se na pele dos outros. Por isso são mais compreensivos. Sabem colocar-se no ponto de vista da outra pessoa e assim sentem e pensam da forma como a outra pessoa. Respeitam a opinião alheia. Respeitam o ser humano em sua essência.

12. Retorno com Elixir

De novo citando Frankl, ninguém descreveu melhor o fato do sofrimento dar ao homem a chance de crescer, principalmente "transformar a si mesmo" que o pintor e escultor israelense Yehuda Bacon. Quando criança foi levado a Auschwitz e após a sua libertação perguntava pelo sentido que poderia ter os anos que passara em Auschwitz, ele escreve: "Como garoto eu pensava: eu vou falar ao mundo o que eu vi em Auschwitz - na esperança de que o mundo se tornasse outro; mas o mundo não se modificou, e o mundo nada quis ouvir sobre Auschwitz. Só muito mais tarde eu compreendi verdadeiramente qual é o sentido do sofrimento. O sofrimento tem um sentido", escreve Yehuda Bacon, "quando você mesmo torna-se outro".

A tarefa da busca do sentido é única para cada pessoa e pode se manifestar de maneiras diferentes ao longo de nossa vida. Quando digo que é única, digo que somente eu posso dar este sentido e ninguém mais. O Mentor deu-me as diretrizes, não caminhou comigo a jornada. Quem deve trilhar a jornada é o herói. Não posso repassar, terceirizar esta tarefa a uma outra pessoa. A vida é assim. Quer mais um exemplo bem banal que ocorre em nossa vida ? Por exemplo, posso resolver que domingo irei dormir até mais tarde. No entanto às 6 da manhã de uma fria manhã de inverno, acordo com vontade de fazer xixi. Somente eu posso aliviar esta vontade de fazer xixi. Ninguém mais no planeta pode fazer xixi por mim. Não dá para repassar esta tarefa a ningúem mais. O que faço ? Levanto-me, faço xixi e volto a dormir. Além disso, não cumpro o minuto heróico e nem tomo banho frio. Fico deitadinho bem enrolado no meu cobertor e volto a dormir gostoso.

13. Uma mensagem de Esperança

De acordo com Frankl " Há um perigo inerente na doutrina do nada mais que aplicado à pessoa humana: a teoria de que o ser humano é nada mais que o resultado de condicionantes biológicos, psicológicos e sociológicos, ou produto da hereditariedade e do meio ambiente. Semelhante visão do ser humano faz o neurótico acreditar no que ele já tende a pensar de qualquer forma, a saber, que é um fantoche, vítima de influências externas ou circunstâncias internas. Este fatalismo neurótico é fomentado e reforçado por uma psicoterapia que nega liberdade à pessoa humana. "

Daqui para frente, não importa quantos anos e décadas passamos na Obra. Não importa se somos filhos de super-numerários ou não. Não importa o que os outros vão dizer. O que importa são as realizações futuras.

O comportamento humano não é determinado. Não somos robôs programáveis. Se passei décadas na Obra, não quer dizer que meu processo de recuperação leve o mesmo número de décadas. Frankl cita Emil A. Gutheil que "uma das mais generalizadas ilusões da ortodoxia freudiana é de que a durabilidade dos resultados corresponde à duração da terapia". Frankl relatou casos com mais de vinte anos e tratados com rápida recuperação, cujos efeitos foram com duração permanente.

Thomas Kuhn elaborou uma teoria onde diz que o progresso da ciência se dá aos saltos e não de forma progressiva. O salto ocorre quando se adota um novo paradigma, um novo modelo para explicar a realidade. Por exemplo, vários problemas das trajetórias dos astros foram solucionados quando a Terra deixou de ser o centro do Universo e foi ocupado pelo Sol. A Teoria da Relatividade de Einstein derrubou o Modelo de Newton para a explicação de certos fenômenos.

Os processos de curas rápidas descritas por Frankl podem ser atribuídos a uma mudança do paradigma existente. Podemos estar presos a certos paradigmas que me paralisam para as realizações futuras. A adoção de uma nova abordagem, de um novo paradigma em minha vida pode transformar radicalmente a busca do sentido da vida. Desta maneira eu dou um salto e dou um novo sentido a minha vida.

Este testemunho procurou quebrar os vários paradigmas e dogmas que tínhamos. A partir daí podemos partir para uma nova jornada de um novo sentido para as nossas vidas. E conseqüentemente achamos a felicidade.

A felicidade não pode ser buscada. Ela é encontrada. Ela é resultado e conseqüência. De acordo com Frankl "O ser humano não é alguém em busca da felicidade, mas sim alguém em busca de uma razão para ser feliz, através - e isto é importante - da realização concreta do significado potencial inerente e latente numa situação dada."

O mais fácil é dizermos: Vou ser feliz, se ganhar muito dinheiro, se encontrar uma pessoa que me ame, se fizer muito sucesso. Puro engano. Invertemos a ordem. Se encontro um sentido em minha vida e tenho um objetivo na mente, faço uma ou mais realizações. Estas diversas realizações podem me trazer dinheiro e sucesso. Estas diversas realizações me fazem feliz. A minha felicidade contagia outras pessoas. Outras pessoas entram em contato comigo e gostam de estar comigo devido a minha felicidade. Neste ambiente encontro alguém e nosso amor é correspondido.

Bibliografia recomendada
No Brasil:
FRANKL, V.E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 16ª edição. Editora Vozes/Sinodal, 2002.
FRANKL, V.E. A questão do sentido em psicoterapia. Papirus Editora.
COVEY, S. R. Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes. Editora Nova Cultural.

www.opuslivre.org

terça-feira, junho 13, 2006

Citação

«Se todas as realizações dos cientistas desaparecessem amanhã, não haveria médicos que não fossem curandeiros, nem tranporte mais rápido do que o cavalo, nem computadores, nem livros impressos, nem agricultura para além de agricultura de subsistência. Se todas as realizações dos teólogos desaparecessem amanhã, alguém notaria a mais pequena diferença?»
(Richard Dawkins, via National Secular Society.)

("If all the achievements of scientists were wiped out tomorrow, there would be no doctors but witch doctors, no transport faster than horses, no computers, no printed books, no agriculture beyond subsistence peasant farming. If all the achievements of theologians were wiped out tomorrow, would anyone notice the smallest difference?")

sexta-feira, junho 09, 2006

AMIGO I

Gwen John, O Livro Precioso, 1920. Óleo s/ tela, 26,4 x 21 cm

AMIGO II

Lucian Freud, Rapariga com Um Cão Branco, 1951. Óleo s/ tela, 76,2 x 101,6 cm

AMIGO III

Balthus, A Rapariga e o Gato, 1937. Óleo s/ tela, 88 x 78 cm

PECADO ORIGINAL


Bonnard, A Janela Aberta, 1921

PECADO ORIGINAL

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade - o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza - o propósito à mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é de minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão -
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!


(Álvaro de Campos)

quinta-feira, junho 08, 2006

O pensamento de Josemaría Escrivá (1): humilhação

Bosch, Cruz às Costas

O pensamento de Josemaría Escrivá (1): humilhação

A principal obra de Josemaría Escrivá, o fundador do Opus Dei, chama-se Caminho e consiste em 999 «considerações espirituais». É uma leitura imprescindível para quem queira compreender a autêntica «lavagem ao cérebro» a que esta organização submete os seus membros.

Os temas recorrentes do livro (para além do apelo à oração e outras trivialidades cristãs) são a humilhação e a obediência. A intenção, como se compreende pela leitura do livro e pelas descrições conhecidas do funcionamento interno da organização, é a mesma de qualquer outra seita em que se submete o indivíduo para melhor o utilizar: destruir tudo o que estrutura a personalidade do sujeito, nomeadamente o seu orgulho e os seus instintos, fazendo dessa terraplanagem da personalidade uma virtude, e recompensando-a com a progressão dentro da organização. As citações seguintes, todas retiradas do livro Caminho, ilustram a glorificação da humilhação segundo Josemaría Escrivá.

  • «- Nega-te a ti mesmo. - É tão belo ser vítima.» (175) «Quando te vires como és, há-de parecer-te natural que te desprezem.» (593) «Não te esqueças de que és... o depósito do lixo. (...) Humilha-te; não sabes que és o caixote do lixo?» (592) «Não és humilde quando te humilhas, mas quando te humilham e o aceitas por Cristo.» (594) «Mortificação interior. - Não acredito na tua mortificação interior, se vejo que desprezas, que não praticas a mortificação dos sentidos.» (181) «Onde não há mortificação, não há virtude.» (180)

Escrivá encoraja os seus seguidores não apenas a humilhar-se ou a fazer humilhar-se por outros (convido o leitor a imaginar a cena...), mas convence-os também a procurar activamente a dor moral e até física que, numa inversão de valores típica do pensamento católico, considera «bendita».

  • «Bendita seja a dor. Amada seja a dor. Santificada seja a dor... Glorificada seja a dor!» (208) «Se sabes que essas dores - físicas ou morais - são purificação e merecimento, bendi-las.» (219) «Não esqueças que a Dor é a pedra de toque do Amor.» (439)

Escrivá encoraja ainda os seus adeptos a reprimirem ferozmente os instintos mais naturais de qualquer animal (comer e procriar), elevando sempre a repressão destes instintos a virtude. É evidente que quer os prazeres da cama quer os prazeres da mesa podem desviar as suas ovelhinhas do rebanho, e «perdê-las» da seita...

  • «Quando te decidires com firmeza a ter vida limpa, a castidade não será para ti um fardo: será coroa triunfal.» (123) «O matrimónio é para os soldados e não para o estado-maior de Cristo. - Ao passo que comer é uma exigência de cada indivíduo, procriar é apenas uma exigência da espécie, podendo delas desinteressar-se as pessoas individualmente. (...)» (28) «A gula é um vício feio. (...)» (679) «À mesa, não fales de comida; isso é uma grosseria, imprópria de ti. (...)» (680) «No dia em que te levantares da mesa sem teres feito uma pequena mortificação, comeste como um pagão.» (681)

Portanto, qualquer membro do Opus Dei se deve privar, em todas as refeições, de enchidos ou de açúcar no café, de água ou de vinho, de sobremesa ou de prato principal, como forma de «mortificação». Assim se assegura que o membro não se distraia perante uma mesa cheia de bons petiscos e bons vinhos. (Felizmente existe o contrário desta vida castradora: as delícias do hedonismo...)

O corpo, porque pode levar o jovem a desviar-se do caminho, é visto, obviamente, como um inimigo a tratar com violência, e a auto-tortura é inevitavelmente considerada uma virtude.

  • «Se sabes que o teu corpo é teu inimigo, e inimigo da glória de Deus, por sê-lo da tua santificação, porque o tratas com tanta brandura?» (227)

Convencido o jovem de que é «lixo», destruído o seu amor-próprio e controlados os seus instintos mais naturais, o «lixo» pode ser reciclado. Como? Obedecendo...

  • «Padre: como pode suportar todo este lixo? - disseste-me, depois de uma confissão contrita. Calei-me, pensando que, se a tua humildade te leva a sentires-te isso - lixo, um montão de lixo - ainda poderemos fazer algo de grande da tua miséria.» (605)

É neste ponto, quando a personalidade do jovem está submetida, que Escrivá lhe recomenda que se entregue aos pés de um «director espiritual» que o dirija, pense por ele, escolha livros por ele, e possivelmente lhe dê ordens não apenas «espirituais»...

(continua)

Ricardo Alves, Diário Ateísta

O pensamento de Josemaría Escrivá (2): obediência

Magritte, Os Companheiros do Medo, 1942

O pensamento de Josemaría Escrivá (2): obediência

(continuação)

Como foi explicado no artigo anterior, o método Escrivá de sujeição do indivíduo funciona entre dois pólos: humilhação e obediência. A humilhação tem a finalidade de abater a vontade do indivíduo e de prepará-lo para obedecer. E a enfase na obediência nas palavras de Escrivá é tão chocante quanto a insistência na procura da dor e da humilhação.

  • «Obedecer... - caminho seguro. Obedecer cegamente ao superior... - caminho de santidade. (...)» (941) «Obedecei, como nas mãos do artista obedece um instrumento - que não pára a considerar porque faz isto ou aquilo, certos de que nunca vos mandarão fazer nada que não seja bom e para toda a glória de Deus.» (617)

Este dever de obediência, que teoricamente é devido a um «Deus» que não dá ordens porque não existe, é transferido para o «director espiritual», que é um personagem importantíssimo no sistema de controlo do Opus Dei.

  • «Director. - Precisas dele. - Para te entregares, para te dares..., obedecendo. - E Director que conheça o teu apostolado, que saiba o que Deus quer;» (62)

O «director espiritual» funciona como figura parental de substituição e como «representante de Deus». A sua autoridade é portanto enorme, e é reforçada pela devassa sobre a vida privada praticada através da confissão.

Como é evidente, ao castrar os afectos terrenos (os únicos reais), a recompensa que o Opus Dei oferece em troca encontra-se noutro mundo, ilusório.

  • «Que nenhum afecto te prenda à Terra, além do desejo diviníssimo de dar glória a Cristo e, por Ele e com Ele e n'Ele, ao Pai e ao Espirito Santo.» (786)

Mas o «director espiritual» não é uma ilusão, é bem real, e Escrivá cuidou até de protegê-lo da crítica.

  • «(...) E nunca o contradigas diante dos que lhe estão sujeitos, mesmo que não tenha razão.» (954)

Aliás, nunca se pode sublinhar demais que o pensamento de Escrivá é o oposto exacto do ideal iluminista de pensamento crítico e de liberdade individual. Escrivá encontra-se do lado daqueles que crêem que existem assuntos acima da crítica (a sexualidade de «Cristo», os cartunes do profeta) e que a autonomia pessoal é um perigo.

  • «É má disposição ouvir as palavras de Deus com espírito crítico.» (945) «No Apostolado, estás para te submeteres, para te aniquilares; não para impor o teu critério pessoal.» (936)

Tudo o que temos construído nos últimos 200 anos assenta na capacidade de cada indivíduo usar o seu próprio juízo e ter liberdade de escolha. Escrivá defende o oposto de tudo isto, e a sua organização não apenas pratica essa cultura internamente como a tenta difundir na sociedade. Note-se que o Opus Dei aspira a formar «chefes» (empresários, professores universitários, políticos), que coloquem as suas actividades profissionais ao serviço da causa.

  • «
  • Aburguesar-te? Tu... da multidão?! Mas, se tu nasceste para chefe! Entre nós não há lugar para os tíbios. Humilha-te, e Cristo voltará a inflamar-te com fogo de Amor.» (16) «Dá um motivo sobrenatural à tua actividade profissional de cada dia, e terás santificado o trabalho.» (359)

O risco de que haja desvios do «Caminho» é constante. E por isso Escrivá insiste bastante em que há um único caminho, e que não se deve resistir a obedecer.

  • «
  • Por essa demora, por essa passividade, por essa tua resistência em obedecer, como se ressente o apostolado e como se alegra o inimigo!» (616) «Que bem entendeste a obediência quanto me escrevias: "Obedecer sempre é ser mártir sem morrer"!» (622) «Se a obediência não te dá paz, é que és soberbo.» (620)

A obsessão de que existe um único caminho é fundamental para manter a ovelha no rebanho, e necessita de uma castração contínua, de uma renúncia a tudo o que não é útil para uma finalidade pretensamente sobrenatural.

  • «
  • Tudo o que não te leva a Deus é um estorvo. Arranca-o e atira-o para longe.» (189)

O pensamento de Josemaría Escrivá é genuinamente católico. A mesma procura do sofrimento contra o prazer, a mesma defesa da humilhação contra a dignidade e a mesma imposição da obediência contra a liberdade podem ser encontradas nas encíclicas papais e nas práticas populares, por exemplo em Fátima. Mas o pensamento de Escrivá é o catolicismo exacerbado, exponenciado. E o Opus Dei é uma «seita» no mesmo sentido em que o são a Igreja da Cientologia ou o Templo do Sol, porque a vida dos indivíduos é totalmente colocada ao serviço da organização, com a cenoura enganosa do «sobrenatural» e com o chicote bem real das privações sensoriais.

Repito, como já o fiz dezenas de vezes, que as pessoas devem ser livres de aderir ao Opus Dei. No entanto, os pais católicos têm o direito de saber qual é o tipo de «espiritualidade» que se pratica numa organização para a qual os seus filhos adolescentes podem ser recrutados a partir do colégio privado ou da paróquia. E a sociedade tem o direito de se defender denunciando e criticando. Porque não há democracia sem democratas, nem a liberdade pode durar muito se grande parte dos cidadãos obedecem a uma organização autoritária e totalitária

Ricardo Alves, Diário Ateísta