quinta-feira, janeiro 25, 2007



INFÂNCIA

Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.


Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo de flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.

(Fiama Hasse Pais Brandão)

quarta-feira, novembro 08, 2006

Canção de mim mesma

X I X

Este é o alimento justamente repartido, esta é a carne para a fome,
Tanto com o mau como com o bom, com todos marco encontro,
Ninguém será menosprezado ou omitido,
A concubina, o parasita, o ladrão, estão pela presente convidados,
O escravo de grossos lábios está convidado, o sifilítico está convidado;
Não haverá diferença entre os demais.

Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo,
Esta é a profundeza e a altura distantes reflectindo o meu próprio rosto,
Esta é a meditativa fusão de mim próprio, e a saída outra vez.

Achas que tenho algum propósito obscuro?
Sim, tenho, como o têm as chuvas do quarto mês, e o tem a mica sobre as rochas.

Pensas que quero assombrar?
A luz do dia assombra? O pisco-ferreiro madrugador que chilreia nos bosques assombra?
Eu assombro mais do que eles?

Esta é a hora das minhas confidências,
Talvez não as faça a todos, mas a ti farei.


Walt Whitman, Song of Myself

quarta-feira, novembro 01, 2006



JOSÉ O HOMEM DOS SONHOS

Que nome dar ao poeta
esse ser dos espantos medonhos?
Um só encontro próprio e justo:
o de josé o homem dos sonhos

Eu canto os pássaros e as árvores
Mas uns e outros nos versos ponho-os
Quem é que canta sem condição?
É josé o homem dos sonhos

Deus põe e o homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser josé o homem dos sonhos.

(Ruy Belo)

sexta-feira, outubro 27, 2006




O BÚZIO

Como suportas ver o teu búzio jazendo ali na poeira?
Essa tragédia corta o ar e não deixa passar a luz.
Erguei-vos, guerreiros, agitai as vossas bandeiras!
Levaitai-vos, cantores, e cantai! Fazedores,
Entrai em acção! Não hesiteis!
Como podemos permitir que o vosso búzio inspirador nos olhe da poeira?

Cheguei ao quarto da oração com uma bela oferenda de flores,
Ansioso por acabar o trabalho do longo dia em santa paz.
Desta vez pensei que as feridas do meu coração
Seriam curadas; pensei que as minhas abluções
Me purificariam - até ver a degradação
Do teu grande búzio no caminho, jazendo na poeira.

Que farei com esta luz de oração, que pretendo com esta oração?
Devo abandonar as minhas flores da paz - devo tecer as grinaldas escarlates da guerra?
Esperei um calmo final para as minhas batalhas;
Pensava que as minhas dívidas tinham sido pagas, as
Batalhas vencidas, e que agora, agradecido, me podia
Instalar no teu colo: mas de repente o teu búzio mudo parecia soar no meu ouvido.

Oh, muda-me, toca-me com juventude, alquimiza-me! Deixa a minha feroz melodia
Resplandecer e girar no peito, e que o fogo da vida se
Transforme em êxtase!
Que se despedacem os alicerces da noite; que os céus,
Enquanto se enchem de luz do amanhacer, levem
O terror para a mais remota escuridão. A partir de hoje
Lutarei para ter e erguer o teu búzio da vitória.
Agora sei que já não posso fechar os meus olhos sonolentos.
Agora sei que uma chuva de setas deve embater no
Meu coração. Algumas pessoas correrão para o meu lado;
Outras hão-de chorar e suspirar de medo;
Horríveis pesadelos sacudirão as camas
Dos que dormem e ouvem: mas hoje o teu búzio retumbará de alegria.

Quando olhei para ti e quis descansar só senti vergonha;
Mas agora veste-me para a batalha, e que a armadura me cubra os membros.
Que novos obstáculos me atinjam e me desafiem;
Receberei todos os golpes e feridas resolutamente;
O meu coração recompor-se-á das tuas injúrias;
Usarei de toda a minha força, recuperarei o teu búzio e fá-lo-ei RESSOAR
.
(Tagore)

sexta-feira, outubro 20, 2006

Aos que vierem depois de nós



1
Realmente, vivo em tempos sombrios!
A palavra inocente é tola. Uma testa sem rugas
Denota insensibilidade. Aquele que ri
Só ainda não recebeu
A terrível notícia.
Que tempos são estes, em que
Falar de árvores quase é um crime,
Porque implica silêncio sobre tantos horrores!
Aquele que ali cruza tranquilamente a rua
Já não está contactável pelos amigos
Que estão em apuros?
É verdade: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que faço justifica que eu possa comer até fartar-me.
Por acaso estou poupado. (Se a sorte me abandonar estou perdido).
Dizem-me: "Tu come, bebe! Alegra-te, que tens!"
Mas como posso comer e beber, se
Ao faminto arranco o que como, e se
O copo de água falta ao sedento?
Mas apesar disso como e bebo.
Também gostaria de ser sábio.
Nos livros antigos diz como é ser sábio:
É manter-se afastado das lutas do mundo e passar o breve tempo
Sem medo.
Também dispensar da violência,
Retribuir o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
Consta que é sábio.
Tudo disso não sou capaz.
Realmente, vivo em tempos sombrios.
2
Às cidades cheguei em tempos de desordem,
Quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos de revolta
E indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão entre às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me encarreguei sem cuidado
E a natureza vi sem paciência.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o carrasco.
Era muito pouco o que eu podia.
Mas os governantes
Se sentavam, sem mim, mais seguros, — esperava eu.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas.
E o objectivo
Encontrava-se muito distante.
Via-se claramente,
Ainda que mal atingível, para mim.
Assim passou o tempo
Que me foi concedido na terra.
3
Vocês, que surgirão da maré
Em que perecemos,
Lembrar-se-ão também,
Quando falam das nossas fraquezas,
Dos tempos sombrios
De que puderam escapar.
Pois íamos, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos,
Através das lutas de classes, desesperados,
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
E, contudo, sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Distorce a cara.
Também a raiva sobre a injustiça
Torna a voz rouca. Ai nós,
Que quisemos preparar o terreno para a bondade
Não pudemos ser bons.
Vocês, porém, quando chegar o momento
Em que o homem seja do homem um amigo,
Lembram-se de nós
Com indulgência.
(Bertolt Brecht)

terça-feira, outubro 10, 2006



SEM DATA

Esta voz com que gritei às vezes
Não me consola de só ter gritado às vezes.
Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
Chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
Sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.
Quando acabava uma soma de silêncios,
Gritava o resultado, não gritava um grito.
Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
Circula entre folhas paradas,
Conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

(Jorge de Sena)

domingo, outubro 01, 2006

SE...


Se podes conservar o teu bom senso e a calma
num mundo a delirar, para quem o louco és tu;
se podes crer em ti com toda a força d'alma,
quando ninguém te crê se vais faminto e nu
trilhando sem revolta um rumo solitário;
se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
tu podes responder, subindo o teu calvário,
com lágrimas de amor e bençãos de perdão;
.
se podes dizer bem de quem te calunia;
se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
mas sem a afectação de um santo que oficia,
nem pretensões de sábio a dar lições de amor;
se podes esperar sem fatigar a esperança,
sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho,
fazer do pensamento um arco de aliança
entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho;
.
se podes encarar com indiferença igual,
o triunfo e a derrota - eternos impostores!
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
e resignar, sorrindo, ao amor dos teus amores;
se podes resistir à raiva e à vergonha
de ver envenenar as frases que disseste
e que um velhaco emprega, eivadas de peçonha,
com falsas intenções que tu jamais lhes deste;

se podes ver por terra as obras que fizeste,
vaiadas por malsins, desorientando o povo,
e sem dizeres palavra e sem um termo agreste,
voltares ao princípio a construir de novo;
se podes obrigar o coração e os músculos
a renovarem um esforço há muito vacilante,
quando no teu corpo já afogado em crepúsculos,
só existe a vontade a comandar: - avante!...
.
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
se vivendo entre os reis conservas a humildade;
se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
são iguais para ti à luz da eternidade;
se quem conta contigo, encontra mais que a conta;
se podes empregar os sessenta segundos
de um minuto que passa, em obra de tal monta
que o minuto se espraia em séculos fecundos,
.
então - ó ser sublime - o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços,
mas ainda para além um novo sol rompeu
abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
sem receares jamais que os erros se retomem,
quando já nada houver em ti que seja humano,
alegra-te meu filho - então serás um homem!
.
Rudyard Kipliking

segunda-feira, setembro 25, 2006

Ser feliz...

Klee, Jardim de Rosas, 1920


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo e que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo.

(Fernando Pessoa)

domingo, setembro 24, 2006



O BASTÃO DA JUSTIÇA

Tu puseste em nossas mãos o bastão da Justiça,
E concedeste-nos o direito de castigar, ó Senhor!
Esta grande honra, esta árdua tarefa,
Humildemente, com a cabeça inclinada,
A aceito de ti!
Ao levar a cabo a minha tarefa não tenho medo algum.
Onde esquecer é uma fraqueza, uma cobardia,
Possa eu cumprir, ó Terrível!, o teu mandato,
E que a verdade surja da minha boca como uma espada resplandecente.
Sentado no teu trono da Justiça,
Que eu seja capaz de manter imaculada a tua honra.
O que se confunde,
E o que docilmente sofre...
Que o teu desprezo os abrase como à erva seca.

(Tagore)

terça-feira, setembro 19, 2006

A canção



(...)
Sozinho o cantor não faz uma canção, tem de haver alguém a ouvir:
Um homem abre a sua garganta para cantar, o outro canta no seu pensamento.
Só quando as ondas invadem a praia produzem um harmonioso som;
Só quando a brisa toca os bosques ouvimos um sussurro nas folhas.
Só com o casamento de duas forças a música se eleva no mundo.
Onde não existe amor, onde os ouvintes são mudos, nunca poderá haver uma canção.


Tagore, Canção interrompida.

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

(Miguel Torga)

sábado, setembro 16, 2006

PERGUNTA

Deus, mais uma vez ao longo dos tempos enviaste mensageiros
Para este impiedoso mundo:
Eles disseram, «Perdoa a todos», e disseram, «Ama o próximo -
Liberta o seu coração do mal.»
Eles são venerados e lembrados, embora nestes obscuros dias
Os mandemos embora com insensíveis cumprimentos, para fora das nossas casas.
E entretando vejo dessimulados ódios assassinando os desamparados sob a capa da noite;
E a justiça a chorar silenciosamente, furtivamente, o abuso do poder,
Sem esperança de redenção.
Vejo jovens a trabalhar freneticamente,
Aflitos, batendo com a cabeça na pedra, inutilmente.

Hoje a minha voz calou-se; não tenho música na minha flauta:
A negra noite sem lua
Encarcerou o meu mundo, mergulhando-o num pesadelo.
E é por isso que, com lágrimas nos olhos, pergunto:
A esses que envenenaram o teu ar, a esses que apagaram a tua luz,
Será que lhes perdoaste? Será que os amas?


(Tagore)

ARREPENDIMENTO




Sobre a terra... um céu eléctrico, luminoso;
Debaixo da terra (na negra e bárbara noite de baixo,
No chamado inferno civilizado
Onde se amontoa o dinheiro roubado)
O combate dos esfomeados contra os fartos!
O rugido do terramoto e o calor insuportável
Sacodem os alicerces do arco do triunfo
E derrubam a casa do tesouro.
Oscilando as suas cabeças estendidas,
Todas as serpentes do inferno
Expelem fogo com a sua respiração venenosa.
Não o faças, lamentando-te inultimente; não amaldiçoes Deus!
Deixa que antes o furioso Destruidor de Tudo
Destrua o pecado acumulado.
Com insuportável sofrimento
Deixa que a úlcera estrangulada vomite o seu veneno,
E o abutre da Ciência despedace
As vogais do mundo.
Um dia estas garras vermelhas de sangue
Soltarão a sua presa.
Os canibais agarram-se aos corações despedaçados
Que os débeis ofereceram em sacrifício...
Pedaços e fragmentos dispersos avermelham a terra;
No fim desta grande destruição
Surgirá um dia uma paz heróica.
Não terei medos ociosos
Mas aplacarei a angústia que brota.
Através dos afagos da plácida comodidade
Reuniu-se a debelidade...
Que arda em chamas e se torne cinza!
Os fiéis cobardes enchem as igrejas
Para adormecer o seu Deus com carícias;
Os débeis de coração acham que graças a orações assustadas
Trarão a paz aos seus lares.
Os avarentos não trazem oferendas
Mas levam seus mealheiros vazios;
Esperam, mediante a magia da linguagem,
Conquistar o mundo,
E conservar os seus ganhos
Cantando hinos santos.
Esperam conseguir que Deus esqueça...
Mas Ele não suporta esses insultos,
Nem as devoções falsas.
Se ainda há força no poder de Deus,
Então, após a penitência no fogo do sacrifício,
Nova vida numa nova terra
Brotará em nova luz.


(Tagore)

quarta-feira, setembro 06, 2006

Poesias de hoje e de sempre



Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu ventre calado
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.
(Desfecho, Miguel Torga)

segunda-feira, julho 10, 2006

Estatutos Secretos do Opus Dei

Los Estatutos secretos del Opus Dei (II)Los estatutos secretos del Opus Dei en PDF 157 KB
o en texto
CÓDIGO DE DERECHO PARTICULAR DE LA PRELATURA PERSONAL DE LA OBRA DE DIOS - Roma, 1982

Ediciones Tiempo S.A.
Julio 1986

Traducción del latín al español por Matilde Rovira Soler
Profesora Titular de Latín de la Facultad de Filología de la Universidad Complutense

Ahora disponibles también:

in English/ en inglés

en italiano

quinta-feira, julho 06, 2006

E tudo era possível


Graça Morais, Barquinho das ilusões, 1973
Óleo sobre tela, 118 X 69 cm

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído

da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido


Chegava o mês de maio era tudo florido

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido


E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer


Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer


Ruy Belo, Homem de Palavra[s]

Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)

terça-feira, julho 04, 2006

Aviso inútil...


GROSZ, Cala-te e continua a servir a causa, 1927



GROSZ, A Árvore da Vida, Fases 2 e 3, 1927



GROSZ, Porquê?, 1928


Desenhos de Grosz que deram origem ao maior processo por blasfémia da República de Weimar.